sexta-feira, junho 30, 2006

Desinvestimento Nacional

Um grupo qualquer de doutos economistas ou lá o que são, chegou à conclusão que o Governo deveria cortar com os benefícios fiscais da Educação e das Energias Renováveis. E acredito piamente que o façam.

Uma poupança de certamente bastantes Euro no presente, mas um desinvestimento nacional enorme no futuro.

Num país em que os níveis de literacia são dos piores da Europa, custa a crer que se possam fazer este tipo de desinvestimentos. Quase que ouço o Zé Pagode em Freixo de Espada-à-Cinta:

- Bais pá escola o caraças! Ficas com a carta quelasse i já é bão! Já biste o dinheiro que bais fazer gastar aqui ao beilho? Ainda para mais não recebo carcanhol nenhum do estado para andares a roçar o cu (que é mesmo assim) nos vancos da escola!

Já o Protocolo de Quioto também vai para o brejo. Quem vai querer investir em energias renováveis, se não existem incentivos para isso?

Os pontos de vista puramente economicistas são bastante redutores e podem pôr em risco os destinos de uma nação. Pensem melhor, caros amigos! Pensem melhor!

terça-feira, junho 27, 2006

Sinal da Cruz... a 100 à hora (e outros ritos Eucarísticos)

Sou uma pessoa observadora... e não se se considere isso um defeito ou uma virtude. Penso até que daria um bom monge contemplativo... pelo menos quando não tivesse mais nada para fazer.

Este fim-de-semana fui assistir (como é meu hábito) à Eucaristia Dominical e, como cheguei um pouco mais cedo do que o costume, entreti-me a reparar no que as pessoas fazem quando chegam à igreja. Benzem-se e/ou fazem o sinal da cruz a uma velocidade impressionante! Por vezes chegam a reduzir a amplitude de movimentos para optimizar a duração do ritual, pelo que as cruzes mais parecem círculos com 5 cm de diâmetro. E pressa para quê? Bem sei que vivemos numa sociedade fast! Mas um templo deve ser um local alheio às pressas do mundo exterior!

Uma vez ouvi dizer que a Eucaristia é a cerimónia com mais rituais de todas as religiões que existem: alturas para estar de pé, sentado ou de joelhos; alturas para falar e outras para ouvir; bençãos, preces, cumprimentos... enfim... um manancial de rituais.

Porém, com toda esta proliferação de rituais numa única cerimónia, existe lugar para os erros sistemáticos que foram herdados (por imitação) de outras pessoas que também não sabiam o que estavam a fazer. Eis alguns exemplos:

  • Na altura em que o Celebrante diz "Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo...", antes da leitura do evangelho, não se deve fazer o sinal da cruz, porque não é do sinal da cruz que se trata! Deve antes fazer-se três cruzes: uma na testa (com o significado de abrir o entendimento para a Palavra de Deus), outra na boca (com o significado de transmitir o que se ouviu de acordo com os preceitos divinos) e finalmente outra no peito (com o significado de abrir o coração para o Evangelho). A cruz final não se faz!


  • Na altura em que o Celebrante diz "Santificai estes dons derramando sobre eles o Vosso Espírito", na altura da consagração do pão e do vinho, as pessoas só devem ajoelhar-se quando o padre impõe as mãos sobre o pão e o vinho. Nunca antes e nunca depois!


  • Na altura do Pai Nosso, existe uma confusão com a palavra céu. Nomeadamente, se é singular ou plural. Bem... ela é utilizada das duas formas. A versão correcta é: "Pai Nosso que estais nos céus [...] seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu".


  • Muitas pessoas confundem os avisos finais com o toque de saída. Convém saber que só assistiram verdadeiramente à missa se ouviram o padre proferir as palavras "Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe". Se o padre perder 2 minutos em avisos numa celebração que dura em média 45 minutos, isto corresponde a uma poupança de tempo de 4%. Será que compensa? Penso que não.

A Eucaristia deve ser bem vivida!

Desculpem... é a minha veia de ex-catequista que falou mais alto, hoje.

quinta-feira, junho 22, 2006

Amor na Lota do Peixe - Capítulo IV

Godofredo Latinhas era o ferreiro de Vila Marmota. Foi com algum espanto que viu entrar um mar de gente para a sua pequena oficina.

- Que quereis de mim, mar de gente? Não devo nada a ninguém! Porque me perseguis? Que mal fiz eu?

Francisco Panças, que encabeçava a comitiva das gentes de Vila Marmota, explicou:

- Caro Godofredo! Nada temas! Vimos em paz! Ouve o que a filha minha, Olívia Manca, tem para te dizer!

Olívia Manca destacou-se da massa humana periclitante e tomou a palavra, pigarreando secamente:

- Senhor Godofredo Latinhas... o Zé Bigodes sofreu um holocausto nuclear! Está radioactivo! Por isso é que consegue vê-lo brilhar, ali... naquele canto escuro da sua oficina!

Zé Bigodes rebrilhava de facto no escuro. Tentou inventar uma piada onde entrasse a sua desgraçada condição actual e o relógio Indigo Night Light da TIMEX, mas não lhe saíu.

- Abrenúncio, Credo em Cruz! Com-a-breca, Zé Bigodes! Pareces uma assombração! - observou Godofredo Latinhas enquanto moldava um pedaço de ferro na bigorna.

- Mas não é! - corrigiu Olívia Manca - Precisamos que o senhor lhe faça um fato completo em chumbo! Vi um filme do super-homem e sei que os elementos radioactivos não conseguem ultrapassar uma barreira de chumbo!

- Isso é um desafio para mim, menina Olívia Manca! Mas aceitarei de bom grado!

Godofredo Latinhas aprontou-se logo a tirar as medidas ao pobre do - agora fosforescente - Zé Bigodes, com as devidas precauções para não sofrer contágio por radiação.

Quando todos menos esperavam, entra no recinto da acção, Joselino Narigangas, insígne presidente da Junta de Vila Marmota. Figura elegante, porte fino, bigode espetado, monóculo no olho esquerdo, fato negro, laçarote ao pescoço e umas sapatilhas brancas da Nike.

- Parai, povo em geral! Parai com este ajuntamento clandestino! Soube de boatos seguros que escondeis no vosso âmago uma criatura radioactiva! Ora, parafraseando o código civil em vigor: "É ilícito esconder das entidades competentes qualquer ser inanimado ou não, portador de radioactividade. Esta situação deve ser comunicada o mais rapidamente possível ao poder local (neste caso, a mim) para que este possa actuar em conformidade, reciclando o ser em causa". Ora não é o que está a acontecer! Mostrai o tratante, para que eu o leve para uma incineradora!

A voz de uma velhinha ressoou por entre as bocas cerradas pelo medo:

- Teríeis coragem de incinerar o vosso próprio filho?

segunda-feira, junho 19, 2006

Receita para Fogo de Artifício de Santo António

Ingredientes:
1 Noite de Santo António
1 Câmara Digital Canon Powershot S50
1 Tripé
Fogo de Artifício Q.B.

Preparação:
Monte a Câmara Digital no Tripé num local onde possa ver o fogo de artifício da noite de Santo António. Espere que o fogo de artifício comece. Assim que os clarões forem visíveis, tire uma fotografia com um tempo de exposição de 6 segundos.
Leve a servir num blog da sua preferência.

sexta-feira, junho 16, 2006

O Dilema de S. Pedro

Para além do famigerado Mundial de Futebol, os jornalistas das televisões descobriram outro furo jornalístico: as trombas de água! Sim... os mesmos jornalistas que há tempos estavam preocupados com as secas, hoje estão preocupados com o excesso de água.
Sei de fonte segura que S. Pedro está a começar a entrar em depressão, uma vez que já não sabe o que fazer. Quando está sol, pedem-lhe chuva. Quando está chuva, pedem-lhe sol.

Os viticultores do Pinhão tiveram ontem bastantes prejuízos por causa das chuvas intensas, mas nenhum deles possui qualquer seguro. Vão agora exigir ao governo subsídios. Nos anos vitícolas que dão lucro, não investem nenhum dinheiro em fundos de risco... depois, é o que se vê.

Enquanto não se cultivar uma mentalidade pró-activa nas populações, nunca iremos para a frente. Em Portugal, governa aquele ditado popular que diz: "Casa roubada, trancas à porta".

Já nessas terreolas que por aí há, outra coisa permanece esquecida ao longo dos anos: a limpeza dos esgotos públicos em tempo de sol. Quando cai aquela chuvinha de verão, é um "Deus nos acuda"!

Bem... enquanto falam das inundações, pelo menos já não transmitem os incêndios em directo e não incentivam os incendiários a seguirem os passos de Nero.

A S. Pedro resta pedir... um pouco de paciência. Porque, para os homens, o clima tem de obedecer ao seu calendário: friozinho só na noite de natal para abrir confortavelmente as prendas ao pé da lareira; chuvinha... alguma, vá lá, durante a primavera para as couvinhas medrarem; solzito no verão, para o zé pagode poder ir para a praia com o seu garrafão de 5 litros de tintol e o cozido à portuguesa bem aconchegado nas marmitas.

terça-feira, junho 13, 2006

Con La Misma Piedra

Considero-me uma pessoa com bom gosto musical. E não tenho preconceitos quanto ao que ouço: desde Beethoven a José Cid.

Cresci a ouvir as "bobines" do meu pai com música Latina: Los Paraguayos, Antonio Machin, Los Panchos, Alberto Cortez, Julio Iglesias, etc. Por esta razão, ouço de vez em quando coisas que a maior parte das pessoas nem sonha que existe.

Ultimamente tenho convertido alguma da colecção de CD's do meu pai (e mesmo algumas "bobines") para MP3, para que ele possa mais comodamente ouvi-la no carro (sem arrastar consigo a prateleira de CD's), bem como no seu leitor portátil de MP3. Isto fez-me recordar algumas das músicas que ouvia na minha infância. Entre elas, está esta música cantada por Julio Iglesias: "Con La Misma Piedra", do Álbum Moments (1982), cujo poema transcrevo porque acho interessante e aplicável a muito boa gente a história que ele conta.

Te miré de pronto y te empecé a querer
sin imaginarme que podría perder
no medí mis pasos
y caí en tus brazos
tu cara de niña me hizo enloquecer.

Pero fui en tu vida una diversión
tan sólo un juguete de tu colección
me embrujaste al verte
y tus ojos verdes
le pusieron trampas a mi corazón.

Tropecé de nuevo y con la misma piedra
en cuestión de amores nunca he de ganar
porque es bien sabido que el que amor entrega
de cualquier manera tiene que llorar.

Tropecé de nuevo y con la misma piedra
en cuestión de amores nunca aprenderé
yo que había jurado no jugar con ella
tropecé de nuevo y con el mismo pie.

P. S. - Pronto... acho que vou ter de deixar de dizer que não gosto particularmente de poesia.

sexta-feira, junho 09, 2006

A Selecção de Todos Nós

O Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol, o Mundial de Futebol.

É esta a programação que temos nas televisões.

Nestas alturas, não existem notícias sobre o país nem sobre o mundo, porque os telejornais passam a maior parte do tempo preocupados com a Selecção Portuguesa. Quer até parecer que os jornalistas estão à espera destes eventos para se esquecerem de tudo o resto e concentrarem-se apenas num assunto... sempre deve dar menos trabalho.

Bem - podem dizer alguns -, mas de facto a Selecção Portuguesa é uma notícia importante! E eu respondo: meus amigos, o Mundial ainda não começou! Ontem, cerca de 5 minutos do Jornal da SIC foram perdidos com as preferências musicais do Ricardo... um assunto de extrema importância para o país. Principalmente quando estão em jogo bastantes interesses comerciais.

Bem - podem dizer alguns-, mas isto é importante para a imagem dos portugueses! E eu respondo: a imagem que passamos é que somos taradinhos pela bola e temos laivos de Nacionalismo colocando bandeiras penduradas do lado de fora das casas de dois em dois anos (para não falar de um senhor que colocou na cabeça meio garrafão de vinho, em jeito de chapéu, com as cores nacionais pintadas). Dá vontade de responder com uma frase que por aí li: "se querem ser nacionalistas, paguem os vossos impostos" e não sejam corruptos.

Geralmente os únicos jogos de futebol que vejo são da Selecção Nacional, mas como o país fica virado do avesso nestas ocasiões, quase dá vontade que a Seleccão venha embora mais cedo... pelo menos passa a existir vida fora da Selecção e fora dos gostos musicais do Ricardo.

quinta-feira, junho 08, 2006

Cântico Negro

Para quem não gosta particularmente de poesia, estes dois últimos posts têm sido um bocado excêntricos. Mas este é um poema que de facto diz-me alguma coisa. Corria o longínquo (?) ano de 1997 quando a M. S. deu-me a conhecer este Cântico Negro de José Régio. Com ela aprendi também a ler outros autores que para mim eram desconhecidos, como Florbela Espanca.

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio

quarta-feira, junho 07, 2006

Flor Vermelha

Não sou particularmente amante de poesia... mas...

Ninguém sabe onde vai nem donde vem
Mas o eco de seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Esta foi mais uma macro que surgiu no jardim da Quinta dos Três Pinheiros, na Mealhada. Pensei que seria uma boa forma de valorizar esta imagem.

terça-feira, junho 06, 2006

Rainha Santa Isabel

Lembrei-me d'aqueles tempos infernais (que palavra estranha, esta) do 7º ao 12º ano de escolaridade, ontem, quando passei junto à minha antiga escolinha: o Liceu Rainha Santa Isabel.


Mas... que tristeza senti... a escola já não fervilha de vida como outrora. Apenas um pacato segurança fazia ronda às instalações. Esta escola pertence ao rol das escolas dispensáveis do Ministério da Educação. Agora só as ervas daninhas parecem querer aprender algo: o crescimento desenfreado nos espaços do Liceu. Já estou a imaginar-me a ter uma conversa com o meu futuro descendente, num diálogo que seria mais ou menos assim:

- Vês, descendente... aqui foi a escola em que o teu pai estudou!

- Fogo, pai! És mesmo velho! Esta escola já fechou e quase não se consegue distinguir no meio deste matagal de ervas daninhas desenfreadas!

Bem, lá fui contando do que me lembrava à minha namorada A. M. ...

- Ali era o ginásio... as voltas que eu dei a esta escola, a correr, em educação física. Ali por cima da entrada era a biblioteca. Aqui do lado direito eram os serviços administrativos. Este outro edifício, onde agora está a DREN, era o antigo liceu feminino Rainha Santa Isabel. Mais tarde foi convertido em escola mista. Ainda cheguei a ter aulas lá no 7º ano!

Ai, as saudades. Ai, a tristeza.

666 - O Sinal da Besta

Numa efeméride tão significante para o destino do Universo em geral e da Humanidade em particular, não posso deixar de apontar alguns sinais do dia de hoje que comprovam inequivocamente a existência de uma presença maligna, luciférica, satânica, vá lá... nesta pacata terça-feira, dia seis do seis do zero seis:

Hoje de madrugada estiveram 26 graus: um calor nada normal para aquelas horas. Esta é uma prova que as labaredas provenientes da fornalha do inferno atingiram a nossa atmosfera.

Mal me levantei, fiz a barba. Anormalmente, fiquei com a pele do pescoço extremamente sensibilizada, ao rubro. Ardeu-me bastante a colocar o after-shave.

No caminho que liga a minha casa ao meu local de trabalho, vi-me confrontado com 6 comportamentos irracionais de 6 condutores que me colocaram em 6 situações de perigo.

Ao chegar ao meu local de trabalho, uma rabanada de vento despenteou-me todo... coisa que me irritou bastante.

Quem puder perceber, que perceba! Este é o sexto parágrafo deste post. Acho que vou parar por aqui.

quinta-feira, junho 01, 2006

Amor na Lota do Peixe - Capítulo III

- Zé Bigodes? O meu Zé Bigodes? És mesmo tu, Zé Bigodes

Zé Bigodes era mesmo ele: em carne, ossos, cabelos, cartilagens, fluídos e roupas ensopadas. Lançou um olhar cor de mar para o objecto do seu afecto, Olívia Manca e abriu a boca para proferir algumas palavras que feririam como punhais, todos os que se encontravam na lota.

- Não vos aproximeis de mim, inocentes criaturas! Receio estar radioactivo! A embarcação onde eu seguia, foi abalroada por um submarino Soviético de propulsão nuclear, enquanto estávamos a tentar apanhar um linguado fugidío.

Florindo Lambreta, pai adoptivo de Zé Bigodes e mecânico nas horas vagas, precipitou-se em direcção ao busto do seu pseudo-primogénito. Não receou a radioactividade. Apenas queria sentir aquele que era pseudo-sangue do seu sangue. Zé Bigodes, ao ver a precipitação do seu adorado pai adoptivo, fugiu para trás de ums caixotes de lapas e caranguejos, enquanto gritava:

- Não se aproxime de mim, estimado pai adoptivo! O meu desejo era abraçar-te, a ti e à minha Olívia Manca! Mas devo conter-me, pois sei que talvez tenha de arrastar esta sina de não poder tocar em ninguém, para o resto da minha vida!

- Esses Russos só fazem asneiras, meu Zé Bigodes! - soluçou Florindo Lambreta - Primeiro Chernobyl, depois a Estação Espacial Mir e agora isto!

Francisco Panças, apesar do ódio visceral que nutria por aquela criatura, sentiu-se no dever de ajudar mais uma vítima do holocausto do Plutónio.

- Rapaz, Zé Bigodes... não gosto de ti... não te vou mentir só por piedade! Considero que agora não é altura para querelas, mas sim para a união! O problema atómico não é só teu, que o sentes no corpo, mas de toda a população de Vila Marmota! Pensa bem, rapaz! Foste elevado ao estatuto de lixo nuclear radioactivo. Podes ser encarado como um dejecto Russo lançado ao mar em águas internacionais! Tendo o teu corpo dado à costa portuguesa, há que exigir aos Russos duas coisas! Primeiro: estudos de impacto ambiental! Segundo: indemnização por futuros prejuízos que advenham da contaminação de Vila Marmota pela radioactividade que carregas contigo.

Olívia Manca estourou num acesso de raiva:

- Parem todos! Porque é que ignorais o verdadeiro problema do meu Zé Bigodes? Temos que arranjar uma forma de ele poder circular por Vila Marmota sem prejuízo para os outros, nem para ele!

- Mas como vais conseguir isso, filha minha? - interrogou Francisco Panças.

- Sim! Como vais conseguir isso, filha de Francisco Panças? - contra-interrogou Florindo Lambreta, pai adoptivo de Zé Bigodes.

- Acalmai-vos, homens de pouca fé! Apenas temos de falar com o senhor Godofredo Latinhas!

Festival Eurovisão da Canção 2017

Desta vez é um comentário a posteriori , até porque assim se torna mais fácil fazer prognósticos. Comecemos pelo concurso interno portuguê...