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sexta-feira, abril 24, 2015

Conto - O Farol (2)

As escadas em caracol terminavam num patamar em madeira mesmo por baixo da maquinaria que fazia girar a luz forte do farol. Entre esta e o patamar não havia muito espaço... talvez uns dois metros de pé direito. O suficiente para albergar um estrado em jeito de cama, uma mesa, uma cadeira e um baú. O acesso à maquinaria fazia-se por uma escada vertical em madeira. Lá fora, o vento começara a soprar com maior intensidade e arremessava as gotas de chuva cada vez mais pesadas contra os postigos, de forma claramente audível. Um calafrio percorreu a espinha de Estêvão. Pressentiu que algo não iria correr bem naquela noite. Pela primeira vez sentiu medo. Um medo difícil de definir. Um sentimento de clausura e de solidão embalado pelas ondas do mar.

quinta-feira, abril 23, 2015

Conto - O Farol (1)

Estava uma noite com o céu carregado. Nem a lua ou as estrelas conseguiam aparecer sob o manto espesso de nuvens que se abatia em redor do velho farol. O caminho para lá chegar era íngreme, pedregoso e o avançar da escuridão dificultava ainda mais a tarefa para quem não conhecesse de cor todas as armadilhas daquela rota sinuosa. Tal não era o caso de Estêvão. Agarrado ao seu cachimbo fumegante, precisava apenas do instinto e da memória para chegar à porta enferrujada que dava acesso à edificação. Vasculhou no bolso das calças e encontrou a chave pesada, comida pelo passar do tempo, de dentes bem largos e limados pelo uso sucessivo. A porta abriu-se e a sua mão escorregou pela parede à altura certa para ligar um pequeno interruptor que inundou com uma luz fria e pálida o patamar inferior do velho farol. Fechou a porta atrás de si. Olhou para cima, para as escadas em caracol que o levariam aos patamares superiores e sentiu o cheiro da humidade salgada misturada com ferrugem. Um pingo ou outro caiam dos degraus e, por vezes, estragavam na sua passagem uma ou outra teia de aranha. Agarrado ao corrimão de pintura esverdeada, pé ante pé, foi subindo, à medida que provocava o ranger da estrutura metálica. Os postigos dispostos ao longo das escadas estavam a ser pintalgados por minúsculas gotas de chuva, prenúncio de uma tempestade que se avizinhava.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 09

Pensavam os incautos leitores que este Guia Prático do Condutor Acéfalo não tinha uma palavra a dizer sobre os condutores de motociclos? Enganam-se! Hoje debruçar-me-ei sobre a única (?) particularidade que interessa sobre este tipo de condução acéfala. O uso do capacete.

São sobejamente conhecidos todos os aspectos negativos que advêm da utilização do funesto capacete. Indicarei apenas alguns:
  • O revestimento interior faz suar a cara em geral e as sobrancelhas em particular;
  • A correia de prender o capacete dilacera a barbela;
  • A viseira impede que o condutor desfrute do ar fresco em geral e dos insectos esparramados na cara em particular;
  • A audição do meio circundante assemelha-se ao que se teria se o condutor tivesse a cabeça enfiada num caixote de cartão;
  • Os efeitos benéficos da água destilada da chuva sobre o couro cabeludo não se fazem sentir;
  • etc.
De tudo isto depreende-se que a postura correta será a não utilização do capacete.

No entanto, é sobejamente conhecido o impacto de algumas marcas de capacetes na capacidade de engatar gajas e/ou gajos. Assim, sugerem-se alguns usos para o capacete, do mais importante para o menos importante:
  • Existem algumas motas com compartimentos apropriados para guardar capacetes, por isso, na altura da condução mantenha o capacete nesse compartimento e quando já não conduzir, coloque-o debaixo do braço e ostente-o com orgulho;
  • Se preferir utilizá-lo enquanto conduz, coloque-o no cotovelo (enfiando o braço pela viseira e tirando-o pela parte de baixo do capacete) porque, afinal, o cotovelo é uma articulação formada por um dos conjuntos de ossos mais importantes do corpo humano (pelo menos mais importante que a caixa craniana de um condutor acéfalo(*));
  • Se preferir utilizá-lo na cabeça enquanto conduz, não o enfie totalmente; ao invés, coloque-o apenas enfiado até à testa porque assim, e em caso de impacto, o capacete removerá o seu nariz que, como se sabe, é outra parte do corpo humano com utilidade obscura.
Seguindo estes conselhos, estará certo de que passará muitas e alegres tardes a apanhar do asfalto a sua própria massa encefálica(**).

(**) Por definição, um condutor acéfalo não terá cérebro, logo, a caixa craniana não terá utilidade específica comparativamente com a articulação do cotovelo.

(**) Por definição, um condutor acéfalo não terá cérebro, logo, muito provavelmente não terá muita massa encefálica para apanhar (se é que terá alguma). No entanto, isto não será um impedimento sério a que passe alegres tardes a apanhar do asfalto outro tipo de coisas que lhe saiam da cabeça. 

terça-feira, novembro 16, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 08

Não há coisa mais irritante do que os semáforos limitadores de velocidade. São irritantes porque, à partida, não deveria haver qualquer tipo de limite para a velocidade a que se circula, principalmente dentro das localidades.

Agora imagine este cenário. Você viaja pacatamente a 100 km/h dentro de uma localidade quando, sem que nada o possa prever, vê um otário à sua frente que circula à provecta velocidade de 50 km/h porque existe um sinal a avisar que os semáforos limitadores de velocidade que se encontram mais à frente estão ajustados para este grau de locomoção semelhante a uma lesma com obesidade mórbida.

O que deverá fazer?

A resposta é demasiado óbvia mas cá vai. Ultrapasse o otário e acelere o mais que puder de forma a garantir que o semáforo despolete e fique vermelho. Aí, com toda a pujança, ignore de alto a baixo a indicação do semáforo e passe por ele como se nada fosse enquanto se refastela com a visão do seu espelho retrovisor; o otário atrás de si parou no semáforo vermelho.

terça-feira, setembro 07, 2010

Meio-Silêncio

Não sou poeta. Escrevi esta prosa semi-poética em Novembro de 1997, numa altura em que estava emocionalmente sensível. Para ser poeta, penso que seria necessário ter episódios destes mais amiúde, o que pode ser bom mas também pode ser mau. Acabei por achar que o texto tinha a qualidade mínima suficiente para incluí-lo no meu blogue.

Estas linhas, escrevo-as ao acaso, enquanto espero por um final de tarde.

Lembro-me que são duas horas e eu aqui... num banco de jardim, alimentado pela brisa que passa e por algumas folhas amarelecidas que rodopiam à minha frente.

E é tão  bom parar! Eu que pensava ser este um lugar para os reformados, para aqueles que já não têm muito a esperar da vida, enganei-me. O barulho suave - se há algum barulho suave, é este - do chafariz que enfeita um dos cantos deste jardim, consegue ser um bom conselheiro.

Entretenho-me a ver as pessoas passar. Cada qual na sua vida, uma ou outra circunstância fez com que passassem por aqui neste momento em que estou receptivo ao que se passa à minha volta.

Estamos em meados de novembro. É natural que esteja um pouco frio. Eu, enquanto arrefeço, penso na minha vida.

Por acaso, numa daquelas atitudes irreflectidas, encostei a mão ao meu ouvido esquerdo. Fiquei assim, num estado de semi-surdez e os sons pareceram mais graves. Imaginei como seria a minha vida se não conseguisse ouvir. Naquele instante, tudo me pareceu poético: o movimento das pessoas, os risos das crianças, os automóveis que passavam, todos embebidos em meio-silêncio.

Estranho... ouço o bater do meu coração, o compasso da natureza. Ora acelerado, ora embalado em doces recordações. Tudo isto num banco de jardim, num qualquer princípio de tarde.

Nas minhas mãos tenho um guarda-chuva que, se calhar, não terei oportunidade de utilizar hoje. Ajuda também a guiar os meus passos e gosto de fazê-lo rodopiar, tendo por eixo a minha mão.

É altura de tomar caminho, numa terra que não é a minha, mas na qual me sinto em casa.

Guardo estas sensações porque sei que sonharei com elas mais tarde ou mais cedo.

Em breve partirei de comboio para a minha cidade, numa linha que já conheço bem. Não apreciarei a paisagem pois estará escuro, mas a viagem embalará o meu sono.

Alguns procuram um sentido para a vida. Na minha vida eu procuro lugares, pessoas, atmosferas, sons, amor. Coisas simples, coisas belas, que o Homem tanto estima porque lhe está na própria natureza. 

sexta-feira, setembro 03, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 07

Este é talvez o post mais importante desta colecção. Se tiver de escolher apenas uma regra deste guia prático, não vá mais longe! Aqui está ela! A verdadeira! A única! A arrebatadora regra para todos os condutores acéfalos!

Não há coisa mais inteligente para se fazer ao volante de um veículo. Na presença de um obstáculo ao longe, o condutor deve acelerar sempre até se encontrar a uma curta distância do mesmo. Depois deverá travar a fundo.

Imagine esta situação da vida real. Uma pessoa, fiel cumpridora das regras deste guia prático do condutor acéfalo, viaja pela faixa da esquerda da auto-estrada a uns simpáticos 100 km/h. Ao longe, você que também prima pela fidelização a este guia, circula também na faixa da esquerda a uns simpáticos 150 km/h. Ao avistá-lo, acelera mais um pouco... digamos... para 160 km/h. Ao faltarem umas escassas dezenas de metro para o ponto em que a traseira do carro da frente fica colada à dianteira do seu veículo, deverá travar a fundo para que progrida a uma velocidade igual ou inferior à do carro que vai à sua frente, de maneira a evitar a colisão.

Qual a razão para este inteligente comportamento? É óbvio! Provocar medo no condutor que vai à frente e fazer com que ele infrinja as regras deste guia, deslocando-se para uma faixa mais à direita e permitir que você, que vai atrás, possa progredir a viagem de acordo com as regras da boa condução acéfala. Porque, bem vistas as coisas, para si, mais vale serem os outros a desviarem-se das regras deste guia prático!

segunda-feira, agosto 23, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 06

A faixa direita da estrada é para quem anda devagar e quem tem carros baratos de baixa cilindrada. A faixa esquerda da estrada é para quem anda depressa e quem tem carros caros de alta cilindrada.

E isto é sempre verdade, quer hajam mais carros na estrada ou não. Por exemplo: alguém que tenha um carro caro e/ou de alta cilindrada, ao entrar numa auto-estrada, deve colocar-se na faixa da esquerda e não a largar mais até sair da auto-estrada.

Estes conselhos também são válidos para quem acha que a sua chocolateira (também conhecida por machimbombo, calhambeque, Dona-Elvira, lata-velha, etc.) tem alma de carro caro e/ou de alta cilindrada ou que simplesmente gosta de colar o acelerador ao tapete de borracha sempre que anda nela.

Outra variante interessante desta regra aplica-se a todos os que têm aversão ao lado direito da estrada. Nestes casos, independentemente da velocidade e do tipo de via em que se circula, deverá preferir SEMPRE o lado esquerdo da faixa de rodagem.

sexta-feira, julho 16, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 05

Se existir uma estrada estreita em que você passa todos os dias e na qual, por norma, não se cruza com veículos nenhuns (mais conhecidas por estradas do "lá vem um"), poderá assumir sem sombra de dúvidas que essa situação irá manter-se todas as vezes em que circular pela referida estrada. Assim, aconselha-se a que ande acima dos limites de velocidade permitidos e que corte o maior número de curvas que puder (poupando tempo e os pneus do carro), principalmente se as curvas forem fechadas e com pouca visibilidade.

terça-feira, julho 13, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 04

Os fabricantes de automóveis exploram os seus clientes ao cobrarem-lhes dinheiro por colocarem dispositivos inúteis nos seus veículos. Um destes dispositivos são as luzes cor-de-laranja que se encontram a toda a volta do automóvel. Estas luzes são a coisa mais despropositada que existe. Gastam a bateria do automóvel, irritam o condutor com o barulhinho que fazem (tic... tic... tic...) e só servem para revelar as nossas intenções aos outros condutores. Como em tudo na vida, o segredo é a alma do negócio. Se alguma vez utilizar o pisca, faça-o, quando muito, depois de efectuar a manobra e nunca antes.

segunda-feira, julho 05, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 03

Quando acabar de estacionar o seu veículo, ao sair do mesmo, abra totalmente a porta. Quanto mais esta impecilhar a faixa de rodagem, melhor. Se algum veículo estiver a passar na altura por si, abra total e rapidamente a porta. Nada melhor que um bom susto para os condutores que passam estarem com os cinco sentidos sempre alerta. As portas têm posições intermédias de abertura estável mas esta funcionalidade não tem qualquer utilidade prática.

terça-feira, junho 22, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 02

Se vir um lugar de estacionamento vazio no meio de outros que estejam preenchidos, não estacione lá. Estacione antes na faixa de rodagem, em frente a esse lugar de estacionamento. Pense nas vantagens. Não precisa de fazer manobras complicadas para estacionar o seu veículo e, se a polícia aparecer, aí sim poderá fazer o sacrifício de colocar o seu veículo no lugar de estacionamento vazio. Por outro lado, transmite a seguinte ideia aos outros condutores: "Eu cheguei primeiro, tenho lugar para estacionar e só não estaciono porque não quero. Se quiseres estacionar, procura um lugar para ti".

(continua...)

sexta-feira, junho 18, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 01

Introdução

É com estas linhas que inicio uma brilhante publicação humorística on-line, baseada em factos (infelizmente) reais.

Será um compêndio de calinadas de condutores automobilísticos acéfalos. Para os condutores acéfalos que vão ler estes posts (e eu sei que são muitos), convém explicar o significado da palavra "acéfalo". Etimologicamente, trata-se de uma palavra derivada por prefixação, em que o prefixo "a" designa "desprovido de", "sem" ou "com falta de" e céfalo deriva do grego κεφάλι (lê-se kefáli), exprimindo a noção de cabeça. Não quero com isto dizer que certos e determinados condutores são desprovidos de cabeça! Longe de mim! Tomo o todo pela parte (recorrendo-me da figura de estilo denominada por sinédoque) e quero apenas dizer que existem condutores que não têm cérebro ou, se o têm, não o utilizam quando conduzem.

Para apimentar mais as coisas, criei um pseudónimo: João Cara-de-Pau.

Por fim, uma palavra aos bons condutores, que também os há. Não tentem fazer isto com os vossos veículos. Leiam este guia prático e façam exactamente o contrário.

Obrigado.

O Guia Prático Propriamente Dito

Se houver um obstáculo na sua faixa de rodagem, faça tudo para chegar primeiro junto do mesmo (inclusive ultrapassar os limites de velocidade permitidos) e ultrapasse-o antes que passe qualquer condutor da outra faixa de rodagem.

(continua...)

quarta-feira, março 14, 2007

Cuca, O Saltimbanco Destemido - Capítulo II

Feitas que estão as apresentações, a estória pode começar.

Estava uma calma tarde de primavera. O sol punha-se pachorrentamente no horizonte, com uma cor que fazia lembrar a cara de alguém que estivesse bastante envergonhado. Cuca brincava com o Monstro, atirando-lhe pedacitos de pão, que o bicho apanhava velozmente, ainda no ar, dando-lhes dentadas. Lurdinhas, com o cabelo apanhado e um avental que apertava as suas formas roliças, dava de comer ao par de cavalos que puxavam a roulotte. À falta de melhor, Cuca tinha-os baptizado de Piolho e Lêndea. Perdoe-me o leitor que a apresentação destas últimas personagens de relevo pertencentes aos domínios do Cuca não tivesse sido feita no capítulo anterior.

- Luuurdes... tás a dar de comer ao Piolho e à Lêndea? - perguntou Cuca.

- Atão não vês que é o que estou a fazer? Se deixasses de brincar com o Monstro e fosses fazer algo de mais útil, fazias melhor! - respondeu Lurdinhas.

- E estou a fazer algo de útil! Estou a dar de comer ao bicho!

- Às prestações... deixa aí a carcaça toda que ele come na mesma! E tu ficas com tempo, por exemplo, para arrumares a bagunçada que está dentro da roulotte!

- O coitado pode-se entalar... é certo que tem uma boca de piranha... mas se lhe dou a carcaça toda ainda se entala com ela! Mais vale partí-la e dar-lha assim... Sempre vai treinando as mordidelas... se aparecer por aqui algum gatuno...

- Olha... o maior gatuno ainda és tu...

- Levas-me uma lamparina nessas beiças...

- Prontos... tinha de acabar em discussão!

E acabava quase sempre em discussão. Viviam possivelmente há demasiado tempo juntos. Três anos a olharem para o focinho um do outro, sem interrupções, levava-os a confrontos fáceis. Discutiam, amuavam, ia cada um para o seu canto e depois, devagarinho, começavam a falar um com o outro. Primeiro, com frases curtas. Depois, com discursos melosos. Mais tarde, com beijos e abraços que se prolongavam pela noite dentro.

Depois da discussão ter de facto acontecido, o diálogo continuou já na fase das frases curtas:

- Amanhã de manhã partimos daqui?

- Sim.

- P'ra onde?

- Em direcção ao Castelo... sabes bem!

- Queres ir ao Castelo?

- Quero.

- Fazer o quê?

- Mostrar-te uma coisa que não vais acreditar...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Cuca, O Saltimbanco Destemido - Capítulo I

"Saltimbanco - do It. saltimbanco, salta em banco, s. m., pelotiqueiro; histrião; ginasta ou acrobata que se exibe nas feiras, festas, etc. ; charlatão de feira ou de circo."

É difícil contextualizar esta estória no espaço e no tempo. Só se pode dizer que foi há muito tempo atrás, em local incerto. Não existia nesse tempo nenhuma das modernices a que nós estamos acostumados hoje em dia. O automóvel, por exemplo, era uma curiosidade apenas acessível aos mais afortunados habitantes das grandes urbes. Mas também não é numa urbe que a nossa estória se conta. Imagine o leitor o cenário mais idílico que conseguir e terá quase conseguido apreender o espaço que servirá de pano de fundo a este negro romance.

Teotónio Marialva. Dito assim, provavelmente não lhe dirá nada. Se for dito de outra forma, provavelmente continuará a não lhe dizer nada... pelo menos por agora. Teotónio Marialva era conhecido entre o seu rol de amigos mais chegados como Cuca.

Cuca vivia numa roulotte, ao estilo dos ciganos, puxada por cavalos. Lá dentro, tinha apenas o indispensável para lhe proporcionar um mínimo de conforto nas longas jornadas que fazia: uma cama, partilhada com a sua companheira de aventuras, Lurdinhas dos Prazeres. Também por lá andavam uma mesa e duas cadeiras, que dançavam por todo o lado durante as viagens, partindo, por vezes, os poucos pertences do casal. A um canto, um armário com portas que fechavam, guardava os copos, pratos e garfos do parco enxoval. Num outro canto, um baú. Era o baú do Cuca. E aí ninguém mexia! Só ele! Lá dentro, estavam os ingredientes indispensáveis para a confecção do seu Elixir da Boa Saúde, que vendia pelas feiras e mercados. Da parte de fora da casa ambulante, preso por uma trela relativamente longa, deambulava o Monstro... um pequeno caniche de olhar ameaçador e dentes afiados, que se atirava a todos que se tentassem aproximar da roulotte. Por vezes, Cuca esquecia-se de o desprender da roulotte quando iniciava mais uma das suas viagens, arrastando o pobre do bicho durante algumas centenas de metros, antes de se aperceber do erro que havia cometido.

Biografia Sussinta de Casimiro Lambreta

Casimiro Lambreta, nascido em Lisboa a 19 de Janeiro de 1953, na freguesia de Alfama, de ascendência simples e pobre, desde cedo cresceu a ouvir o fado vadio e os pregões das varinas.

Não é de estranhar que se tenha tornado escritor, poeta e homem de letras, depois de ter falhado uma carreira de palhaço no circo Ringland.

É autor de livros best-seller como: "Eduardo, Mais um Jovem com Acne", "Divagações Sobre O Combustível Verde", ou ainda "O Teu Coração É Um Pudim de Noz". Na poesia, escreveu alguns textos dispersos, mas ultimamente o seu editor tem reunido estes poemas em antologias tais como: "Canto dos Repolhos", "Diversos Hinos Sobre a Unicidade do Ser", "Reflexos de Um Lamaçal" ou, aquele que é considerado por muitos o expoente da poesia portuguesa: "Desfaz-me Com Versos Cortantes".

Nos dias que correm, fez do Alentejo o seu local para viver. Vida sofrida, aquela que Casimiro Lambreta teve. Em Abril de 1974, quando outros andavam preocupados com revoluções, Casimiro Lambreta resolveu percorrer de Lambreta, os quatro cantos de Portugal, tendo surgido daí a sua alcunha.

Casimiro Lambreta dedica agora mais tempo para aquilo que lhe é realmente importante: escrever!

Neste momento, trabalha em duas obras paralelas: "Amor na Lota do Peixe", um romance que muitos consideram autobiográfico com laivos de ficção científica e "Cuca, o Saltimbanco Destemido".

Este Blog servirá de divulgação das obras de Casimiro Lambreta. Depois de "Amor na Lota do Peixe", segue-se o romance negro "Cuca, o Saltimbanco Destemido". A não perder!

Amor na Lota do Peixe - Capítulo X (e último)

Aquela lota nunca mais foi a mesma... não depois que viram partir Olívia Manca e o extraterrestre em direcção ao ponto onde o mar e o céu se fundem.

Na modesta embarcação, o casal seguiu calmamente o seu destino.

- Diga-me, senhor extraterrestre... o seu planeta é bonito?

- Diz-me, Olívia Manca... ainda consegues avistar terra?

- Não... só vejo água à nossa volta!

- Óptimo! Que isto já me estava a fazer calor!

Num ápice, a criatura despiu a sua fantasia de extraterrestre, deixando pela primeira vez a sua verdadeira identidade brilhar sob o sol do meio-dia. Pasmai: Zé Bigodes.

- Zé Bigodes? Tu, por baixo de uma fantasia de extraterrestre mascarada pela fantasia de russo? Mas por quê?

- Eu explico, Olívia Manca! É tudo muito simples: a minha mãe, Sezaltina Buços teve um caso com Joselino Narigangas, mas encontrava-se também com Florindo Lambreta, nos dias em que estava de folga dos trabalhos da quinta. Numa dessas folgas, a minha mãe levou mais para a frente a relação que tinha com Florindo Lambreta e eu nasci. De comum acordo, ambos acharam melhor que Joselino Narigangas fosse considerado o verdadeiro pai da criança. Assim, sempre puderam extorquir uma soma avultada de massa aos marretas dos Narigangas, que pagaram forte e feio pelo silêncio da minha mãe. O dinheiro era tanto que deu para ela e para o meu verdadeiro pai: Florindo Lambreta! Como vês, não somos meios-irmãos e por isso, o nosso amor é cem-por-cento válido! Quando a paixão nasceu entre nós os dois, eu e o meu pai, pensamos num plano para que eu conseguisse ficar contigo, sem desmascarar os factos sobre a minha verdadeira filiação. Florindo Lambreta, o meu amado pai, foi espião da rússia durante muitos anos aqui em Portugal e reconhecido lutador pelos direitos comunistas, para infelicidade das gentes de Vila Marmota. Como contrapartida, os russos proporcionam-lhe algumas facilidades em vários campos. Basicamente, eis o plano que arquitectámos: Faz hoje uma semana, eu e o meu pai fomos à Russia. Nos laboratórios federais, os russos fizeram um clone de mim mesmo. O seu envelhecimento foi acelerado numa incubadora até que ficássemos os dois com a mesma idade e com o mesmo aspecto. Regressámos depois os três a Portugal num submarino de aluguer a propulsão nuclear, que ficou ao largo da costa portuguesa. Hoje de madrugada, quando fui à faina, naveguei em direcção ao submarino e troquei de lugar com o meu clone, que engoliu de propósito um pouco de plutónio. Ele veio ao encontro das gentes de Vila Marmota e deu-me pé para entrar na estória, salvando o meu clone da contaminação pelo Plutónio. Como esta vila é contra o comunismo, seria mais fácil para esta gente aceitar o teu casamento com um extraterrestre do que com um apoiante do comunismo russo! Felizmente tu conseguiste ver o meu disfarce de russo e puseste a descoberto o meu disfarce de extraterrestre. Como tu não sabias de nada, agiste por instinto, o que deu mais realismo à cena. O meu clone, Zé Bigodes II, viverá naquela comunidade cumprindo todas as tradicções de Vila Marmota e nós não nos teremos que preocupar mais com os outros, porque todos pensam que estamos noutro planeta. A felicidade perfeita, mon amour!

- Ó Zé Bigodes! Meu Zé Bigodes! E tudo isto por mim!

- Sim! Por ti, minha estrela da madrugada, meu recife de coral multicolor, minha estrelinha do mar, minha pérola do oceano!

Zé Bigodes, entretido que estava a encontrar adjectivos que descrevessem Olívia Manca, não reparou num pequeno rochedo que conseguiu rasgar uma das paredes do bote de borracha. Consta-se que depois do desastre, ambos nadaram até às ilhas Maldivas, onde chegaram cansados, mas felizes.

Entretanto, em Vila Marmota, Miquelina Zarolha apresentava a sua última teoria ao mar de gente que se acotovelava perto do pelourinho onde a discursante se encontrava.

- ...por isso, não vos deixeis iludir, ingénua gente! Eu posso garantir-vos que Zé Bigodes é um clone do verdadeiro Zé Bigodes, que partiu com Olívia Manca para uma vida incestuosa!

Joselino Narigangas, de porte fino, altivo e com palavras escolhidas a dedo, fez ressaltar a sua voz no meio da multidão, cheia de conteúdo poético:

- Empalem-me essa velha caquética!

FIM

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Amor na Lota do Peixe - Capítulo IX

- Mas que vem a ser isto? O que é que você quer da minha filha bastarda? - perguntou Joselino Narigangas.

- Eu explico... há muitos anos que o nosso disco voador sobrevoa a terra em missões de reconhecimento. Num desses vôos mais rasantes, dei de caras com a face da sua filha bastarda e fiquei imediatamente apaixonado. Queria chegar mais perto dela, por isso, em vez de andar para aí de disco voador, mascarei-me de russo, fazendo-me transportar nas águas portuguesas por um submarino a propulsão nuclear! Sempre dá menos nas vistas! De qualquer forma, hoje aconteceu um imprevisto! Um pedaço de plutónio saíu pelo cano de escape do submarino, quando este abalroou o navio de pesca onde seguia o desafortunado do Zé Bigodes, tendo este sido contaminado logo de seguida. Quis reparar o mal feito e por isso aqui estou eu!

- Um extraterrestre apaixonado por mim? Que emocionante! - disse Olívia Manca.

- Esperem lá! Calmex com o andor! Não vou dar a minha filha bastarda de mão beijada a um extraterrestre!

- Vai, vai! Primeiro porque eu vejo nos olhos da sua filha que ela quer vir comigo e depois, porque o senhor não vai ficar de mãos a abanar! De facto, trouxe-lhe quatrocentos quilos em ouro que servirão como dote.

- E onde é que vocês vão passar a lua-de-mel? Ou melhor: em que planeta? - perguntou Joselino Narigangas à medida que os seus olhos se iam transformando em cifrões.

- Isso ainda é coisa a decidir. Para mais, não se precisa preocupar mais com o bem-estar da sua filha bastarda! Recreámos uma biosfera equivalente à da terra no meu planeta de origem, que por razões de segurança, não vou dizer qual é. Ela será sempre rodeada de luxos e paparicos... à altura da sua beleza! Até pode ser que a curemos do defeito na perna.

- Ó sim! Façam isso! Já que fez o favor de descontaminar o meu filho ex-lâmpada fluorescente, seria uma dádiva dos deuses se desmancassem a minha filha bastarda Olívia Manca!

- Tentaremos! Ó gente de Vila marmota! Esquecei tudo quanto vistes nas últimas horas! O mundo em que viveis não está preparado para saber a verdade sobre o cosmos! Guardai este segredo com a própria vida!

Francisco Panças disse:

- Sim senhor! De acordo! Vocês vão partir no disco voador? Podemos vê-lo?

- Não! Estacionei-o mais lá para o alto-mar. Vamos até ele neste simples bote de borracha insuflável.

O primeiro casal interplanetário desapareceu no horizonte azul.

terça-feira, novembro 21, 2006

Amor na Lota do Peixe - Capítulo VIII

- Chega! É demais! Agora também entram extraterrestres? Entram, mas não na minha oficina! Xô! Andor! Fora daqui, mar de gente e extraterrestre também! - gritou Godofredo Latinhas.

Quais cães explusos de uma confeitaria fina, todos saíram para a rua. Uma vez em domínios camarários e, por conseguinte, públicos, o povo de Vila Marmota e o recém-chegado extraterrestre, puderam continuar as suas vicissitudes.

- Um extraterrestre! Aqui connosco! - comentou emocionado Zé Bigodes - Afinal não estamos sózinhos! Vocês sabem o que isto significa?

- Significa que estás daqui a bocado a apanhar com uma sardinha no focinho, se não te calarares com esse paleio! - ameaçou Francisco Panças.

- Sim... sou um extraterrestre! E falo português! - disse o ex-louro.

- Engraçado! Pensei que os extraterrestres só falassem inglês! - disse dona Emília Genoveva Cerqueira de Castro Gumercinda de Miranda.

- Mentira! - corrigiu o ex-louro - A sociedade consumista norte-americana e, mais concretamente, a indústria cinematográfica, é que fez passar essa ideia às massas! De facto, posso garantir-vos que a maior parte dos extraterrestres tira nega a inglês! Gostamos mais da língua do vosso jardim à beira-mar plantado!

- Sim... pois... o que é que o senhor extraterrestre nos quer pedir? Só assim se consegue explicar esses salamaleques todos que você está a ter para connosco! - observou Olívia Manca.

- Muito perspicaz, menina Olívia Manca! De facto, eu gostava que todo o povo de Vila Marmota me acompanhasse até à lota do peixe! Preciso de fazer uma revelação muito importante!

- O mundo vai acabar? - perguntou Joselino Narigangas.

- Você vai acabar com o mundo? - perguntou Francisco Panças.

- Acompanhai-me e ficareis a saber! - respondeu o extraterrestre num tom intrigante.

As gentes de Vila Marmota percorreram as ruas estreitas que desaguavam na lota, hoje anormalmente deserta. As gaivotas, sobrevoando a área, pareciam adivinhar a impaciência e a tensão circundante. O extraterrestre colocou-se entre os caixotes de linguado, robalos e pescada, ficando rodeado pelo mar de gente logo de seguida.

- Eis pois que nos encontramos no local apropriado para a revelação que vou fazer.

- Que revelação é essa, extraterrestre?

O extraterrestre lançou um olhar que visava o infinito.

- Estou aqui por causa de Olívia Manca!

sábado, novembro 11, 2006

Um novo roteiro: Resende

Hoje andei a fazer umas arrumações aqui por casa e encontrei um texto de ficção (com vários laivos de realidade) meu de 8 de Março de 1989. Fica aqui a sua transcrição, com alguns retoques cosméticos ao português utilizado...

"Era uma manhã calma de Março. Eu encontrava-me no peitoril da minha janela a ver o sol fazer o seu percurso rotineiro. Tal como ele, também eu tenho a minha rotina diária: levantar-me, lavar-me, vestir-me, comer e ir para o trabalho... mas naquele dia não! Era sábado! E ao sábado eu saio da rotina para ler, dar uns passeios à beira rio, ou então limitar-me a observar tudo o que passa à minha volta.

Resolvi tirar esse dia para visitar uma aldeia do interior. Fazer algo de diferente. O que eu queria era mudar.

Fiz uma pequena revisão ao carro e puz-me a caminho. O meu destino era Resende.

Meti-me na estrada para Entre-os-Rios e lá fui. O percurso total era de 100 quilómetros. A meio do caminho para Entre-os-Rios, parei para tomar o pequeno-almoço num café de beira de estrada. Eram nove horas da manhã e eu não gosto de guiar de estômago vazio.

Lá voltei a seguir viagem. Respirava o ar que, pela primeira vez em anos, se mostrou de uma frescura relaxante. Observava também a paisagem circundante em busca de coisas simples que, afinal, são as mais belas. Para além do canto dos pássaros, encontrei serpenteando por entre as encostas das montanhas, o Rio Douro. Ora azul, ora dourado, o rio apresentava-se com uma beleza ímpar. As igrejas e as pontes românicas despontavam aqui e ali. Os campos verdejantes escorriam desde o cume da montanha até à berma da estrada.

Por fim, cheguei a Entre-os-Rios. Antes de entrar na ponte, parei o carro e fui comprar umas rosquinhas que uma velha senhora vendia:

- Por favor, minha senhora, queria umas rosquinhas...
- Sim, sim! Quanto quer levar?
- Faça-me um quarto de quilo, sim?
- Muito bem... tome! São fresquinhas!
- Obrigado!

Meti-me no carro e dirigi-me a Resende.

De Entre-os-Rios até Resende, podem ver-se casas do século passado e locais em que o tempo parece ter parado há cem anos atrás: continuam a recorrer às tecnicas tradicionais de agricultura, os caminhos são feitos para carros-de-bois e as pessoas levam uma vida despreocupada.

Observei os pedreiros no meio do granito, a fracturá-lo em pequenos ou grandes bocados.

O rio Douro acompanhou-me sempre lá do fundo.


A estrada era agora quase sempre aos zês, pois haviam muitas tabuletas a avisar-nos para abrandarmos a marcha e avançarmos cautelosamente. Faltava-me pouco mais de cinco quilómetros para chegar a Caldas de Aregos. Eu estava "em pulgas" para chegar ao meu destino. Em Caldas de Aregos tornei a sair do carro para beber alguma coisa num café com pouco mais de cinco mesas. Caldas de Aregos é muito conhecida pelas termas que lá existem.

Próxima paragem: Resende. Felizmente para mim, de Caldas de Aregos a Resende são uns escassos dez quilómetros.

Quando lá cheguei, fiquei espantado com a simplicidade do lugar. Uma rua principal ramificava-se em ruas mais estreitas de onde nasciam casas mais ou menos novas. Uns tantos cafés, talhos, padarias, restaurantes e está uma vila feita! Parei o carro, saí e fui dar umas voltas pela povoação.

Um belo jardim muito limpo e florido, dava toda a sua beleza a quem por lá passasse e se sentasse à procura de descanço. Depois, virei a minha atenção para um lindo coreto. Por momentos, imaginei a banda a tocar.

Depois do almoço, parei no café "Cova Funda", para comprar as especialidades de Resende: as Cavacas e a Bola de Carne.

Segui depois em direcção ao Penedo de S. João. Daí, pode disfrutar-se de uma visão completa de Resende, Cinfães e de outras terras vizinhas.



O caminho de regresso não foi menos agradável. O pôr-do-sol empresta um tom bucólico às paisagens do douro vinhateiro.


Não hesito em recomendar este roteiro. Estou certo que cada um o apreciará à sua maneira"...


As viagens até Resende são das lembranças mais marcantes da minha infância: pelo encontro com os meus avós maternos, pela paisagem imensamente diferente daquela que me circundava no dia-a-dia e, pelos terríveis enjôos durante a viagem. As fotografias que acompanham esta narrativa têm, no máximo, três anos... reflectem o fascínio que ainda hoje sinto quando vou a Resende.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Amor na Lota do Peixe - Capítulo VII

O mar de gente respondeu: "Santinho!"

Miquelina Zarolha, deitando mão à sua sacola de beata, tirou de lá um dicionário de Russo-Português. Após uma aturada pesquisa, proferiu:

- Suas bestas! Este homem não espirrou! Apenas disse: "Boa tarde a todos! Vim buscar o plutónio"!

Francisco Panças virou-se para Joselino Narigangas dizendo:

- A treta da velha até fala russo!

Miquelina Zarolha arranhou uma frase que o russo entendesse:

- Lasdróbia pravénia ilieschev! Zé Bigodes possedov porrevsky plutoniescu! Eu disse: Muito boa tarde para ti também, pá! A porra do plutónio está com o Zé Bigodes!

- Piovska! Niet espereiev porreciovenko!

- Ele disse: "Poça! Não esperava por isso"! E agora o que é que eu digo? - perguntou Miquelina Zarolha.

- Diz-lhe que vá ter com Zé Bigodes e lhe tire o plutónio! Ainda estou para ver como é que ele vai fazer isso! - exclamou Joselino Narigangas.

Zé Bigodes fez cara de caso.

- Ei! Mas que é isto? Daqui não sai plutónio nenhum! Enquanto vocês estavam para aí com lasdróbias e pravénias, eu reflecti aturadamente sobre o meu holocausto e decido que de mim não sai nada! Não sai enquanto eu não vir uma contrapartida monetária! Afinal de contas, ouvi dizer que uns gramitas de plutónio dão para abastecer de energia uma cidade durante cinquenta anos! Não é brincadeira nenhuma, com-a-breca!

Fosse ou não fosse brincadeira, o louro pôs-se por trás de Zé Bigodes e deu-lhe uma traulitada nas costas. Como que impelido por um canhão, um pedaço verde fluorescente de plutónio radioactivo, saltou da boca de Zé Bigodes, indo parar direitinho dentro de uma caixa de chumbo que o louro havia colocado no chão minutos antes sem que ninguém se apercebesse do facto.

- Agorievski, voutiovska imuniochenko kotrevio plutoniescu!

Miquelina Zarolha traduziu:

- Ele disse: "Agora é que vai ser bonito! Vou-te imunizar contra o plutónio, servindo-me de um spray milagroso que os meus camaradas lá da russia inventaram!

Após algumas borrifadelas, Zé Bigodes deixou de estar fluorescente.

Olívia Manca, no meio da confusão que se gerou a seguir ao milagre, reparou em algo de estranho no louro. Lançou-se sobre ele e arrancou a máscara e a cabeleira que ele trazia para ocultar a sua identidade! Apenas Olívia Manca havia reparado neste facto, por causa de um misterioso alfinete-de-ama que viu atrás do pescoço do sujeito.

Qual não foi o seu espanto, quando constatou que se tratava de um extraterrestre!

Festival Eurovisão da Canção 2018

Como é tradição, aqui vai a minha apreciação do Festival da Eurovisão deste ano. E o vencedor é... ...novamente Salvador Sobral! Sim. ...