sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Amor na Lota do Peixe - Capítulo X (e último)

Aquela lota nunca mais foi a mesma... não depois que viram partir Olívia Manca e o extraterrestre em direcção ao ponto onde o mar e o céu se fundem.

Na modesta embarcação, o casal seguiu calmamente o seu destino.

- Diga-me, senhor extraterrestre... o seu planeta é bonito?

- Diz-me, Olívia Manca... ainda consegues avistar terra?

- Não... só vejo água à nossa volta!

- Óptimo! Que isto já me estava a fazer calor!

Num ápice, a criatura despiu a sua fantasia de extraterrestre, deixando pela primeira vez a sua verdadeira identidade brilhar sob o sol do meio-dia. Pasmai: Zé Bigodes.

- Zé Bigodes? Tu, por baixo de uma fantasia de extraterrestre mascarada pela fantasia de russo? Mas por quê?

- Eu explico, Olívia Manca! É tudo muito simples: a minha mãe, Sezaltina Buços teve um caso com Joselino Narigangas, mas encontrava-se também com Florindo Lambreta, nos dias em que estava de folga dos trabalhos da quinta. Numa dessas folgas, a minha mãe levou mais para a frente a relação que tinha com Florindo Lambreta e eu nasci. De comum acordo, ambos acharam melhor que Joselino Narigangas fosse considerado o verdadeiro pai da criança. Assim, sempre puderam extorquir uma soma avultada de massa aos marretas dos Narigangas, que pagaram forte e feio pelo silêncio da minha mãe. O dinheiro era tanto que deu para ela e para o meu verdadeiro pai: Florindo Lambreta! Como vês, não somos meios-irmãos e por isso, o nosso amor é cem-por-cento válido! Quando a paixão nasceu entre nós os dois, eu e o meu pai, pensamos num plano para que eu conseguisse ficar contigo, sem desmascarar os factos sobre a minha verdadeira filiação. Florindo Lambreta, o meu amado pai, foi espião da rússia durante muitos anos aqui em Portugal e reconhecido lutador pelos direitos comunistas, para infelicidade das gentes de Vila Marmota. Como contrapartida, os russos proporcionam-lhe algumas facilidades em vários campos. Basicamente, eis o plano que arquitectámos: Faz hoje uma semana, eu e o meu pai fomos à Russia. Nos laboratórios federais, os russos fizeram um clone de mim mesmo. O seu envelhecimento foi acelerado numa incubadora até que ficássemos os dois com a mesma idade e com o mesmo aspecto. Regressámos depois os três a Portugal num submarino de aluguer a propulsão nuclear, que ficou ao largo da costa portuguesa. Hoje de madrugada, quando fui à faina, naveguei em direcção ao submarino e troquei de lugar com o meu clone, que engoliu de propósito um pouco de plutónio. Ele veio ao encontro das gentes de Vila Marmota e deu-me pé para entrar na estória, salvando o meu clone da contaminação pelo Plutónio. Como esta vila é contra o comunismo, seria mais fácil para esta gente aceitar o teu casamento com um extraterrestre do que com um apoiante do comunismo russo! Felizmente tu conseguiste ver o meu disfarce de russo e puseste a descoberto o meu disfarce de extraterrestre. Como tu não sabias de nada, agiste por instinto, o que deu mais realismo à cena. O meu clone, Zé Bigodes II, viverá naquela comunidade cumprindo todas as tradicções de Vila Marmota e nós não nos teremos que preocupar mais com os outros, porque todos pensam que estamos noutro planeta. A felicidade perfeita, mon amour!

- Ó Zé Bigodes! Meu Zé Bigodes! E tudo isto por mim!

- Sim! Por ti, minha estrela da madrugada, meu recife de coral multicolor, minha estrelinha do mar, minha pérola do oceano!

Zé Bigodes, entretido que estava a encontrar adjectivos que descrevessem Olívia Manca, não reparou num pequeno rochedo que conseguiu rasgar uma das paredes do bote de borracha. Consta-se que depois do desastre, ambos nadaram até às ilhas Maldivas, onde chegaram cansados, mas felizes.

Entretanto, em Vila Marmota, Miquelina Zarolha apresentava a sua última teoria ao mar de gente que se acotovelava perto do pelourinho onde a discursante se encontrava.

- ...por isso, não vos deixeis iludir, ingénua gente! Eu posso garantir-vos que Zé Bigodes é um clone do verdadeiro Zé Bigodes, que partiu com Olívia Manca para uma vida incestuosa!

Joselino Narigangas, de porte fino, altivo e com palavras escolhidas a dedo, fez ressaltar a sua voz no meio da multidão, cheia de conteúdo poético:

- Empalem-me essa velha caquética!

FIM

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