segunda-feira, maio 14, 2018

Festival Eurovisão da Canção 2018

Como é tradição, aqui vai a minha apreciação do Festival da Eurovisão deste ano.

E o vencedor é...

...novamente Salvador Sobral!

Sim. É verdade. Salvador salvou o Festival com a canção que interpretou durante o "intervalo". Quanto ao resto, foi paisagem. E, desculpem-me a franqueza, mas não consigo ver nada de interessante na música da "galinha" israelita.

Longe vão os tempos de "Ah-Bah-Nee-Bee" (1978)...



""Hallelujah" (1979) ...



ou mesmo de "Diva" (1998) ...



Fiquem então com o verdadeiro vencedor deste ano com a sua atuação no festival...



ou com o vídeo oficial de "Mano a Mano".



Vim chorar a minha pena
No teu ombro e, afinal,
A mesma dor te condena
Choras tu do mesmo mal

Irmãos gémeos no tormento
Filhos da mesma aflição
Nenhum dos dois tem alento
Pr'a dar ao outro uma mão

O amor não nos quer bem
Ninguém nos há-de valer
Se um perde aquilo que tem
E o outro não chega a ter

Só nos resta o mano a mano
Se não queremos ficar sós
Deixa lá o teu piano
Namorar a minha voz

segunda-feira, maio 15, 2017

Festival Eurovisão da Canção 2017

Desta vez é um comentário a posteriori, até porque assim se torna mais fácil fazer prognósticos.

Comecemos pelo concurso interno português das canções candidatas à representação do nosso país. De todas elas só duas me chamaram verdadeiramente a atenção.

A primeira música, composta pela Luísa Sobral e interpretada pelo "excêntrico" (?) Salvador Sobral, "Amar pelos Dois", não é uma música festivaleira. É antes uma balada romantico-melancólica, com arranjos de bossa nova.


    Se um dia alguém
    Perguntar por mim
    Diz que vivi
    Para te amar

    Antes de ti
    Só existi
    Cansado e sem nada p’ra dar

    Meu bem
    Ouve as minhas preces
    Peço que regresses
    Que me voltes a querer

    Eu sei
    Que não se ama sozinho
    Talvez devagarinho
    Possas voltar a aprender

    Se o teu coração
    Não quiser ceder
    Não sentir paixão
    Não quiser sofrer

    Sem fazer planos
    Do que virá depois
    O meu coração
    Pode amar pelos dois

É uma canção simples, efetiva, com uma mensagem também ela simples e efetiva de um amor, possivelmente não correspondido, que alguém se dispõe a manter e a sofrer só para que ele não se vá.

Na conferência de imprensa que ocorreu depois do festival, um jornalista conotado com uma revista LGBT fez notar que a música "Amar pelos Dois" não tem pronomes de género, podendo ser cantada por um homem ou por uma mulher, dirigindo-se a um homem ou uma mulher. Luísa Sobral disse que isso não foi propositado. Disse também que quando escreveu e compôs a música para o seu irmão fez de forma a que ela também a pudesse cantar e, talvez por isso, o género não apareça.

Outra que tem uma melodia interessante e uma voz ainda mais interessante (a da cantora Kika Cardoso) é "Nova Glória" dos Viva La Diva, composta por Nuno Gonçalves. Embora original, os contra-tenores (Luís Peças e João Paulo Ferreira) não me convenceram. A parte final, excessivamente gritada, poderia ser melhorada.


    Sou e o que fui passou
    delirei com amor
    Mil memórias

    Ser ou não quis parecer
    algo por dizer,uma história

    Nova Glória e sonhos nunca cumpridos, nunca ouvidos.

    Quero mais, pois dá-me

    Amor,
    tão longe a dor,
    um brinde à cor,
    vejo ao longe o mar,
    juro-me não falhar…

    Sim, decidir por ti
    quis seguir, senti a vitória.

    Quero mais pois dá-me

    Refrão

    Grito intenso
    um comum bom senso
    rezo o mesmo terço, quero mais
    pois dá-me

    Refrão

Para além da música portuguesa interpretada por Salvador Sobral, poucas se destacaram na grande final do Festival Eurovisão.

Uma delas é a música italiana, cantada por Francesco Gabbani, intitulada "Occidentali's Karma". Trata-se de uma música "festivaleira", moderna, bem feita, bem interpretada e bem letrada. Faz-me apenas confusão que "quase todos" os italianos cantem com aquela voz áspera... assim de repente, a voz de Francesco Gabbani faz lembrar Eros Ramazzotti mas poderia também dizer Toto Cutugno. Na letra que a seguir transcrevo, as partes a itálico não fazem parte da versão Festival Eurovisão da música. Compreende-se que a primeira parte obliterada destina-se a encurtar um andamento de igual cadência melódica e a segunda talvez tenha sido rasurada pela referência à marca Chanel.


    Essere o dover essere
    Il dubbio amletico
    Contemporaneo come l’uomo del neolitico
        Nella tua gabbia 2×3 mettiti comodo
        Intellettuali nei caffè
        Internettologi
        Soci onorari al gruppo dei selfisti anonimi
    L’intelligenza è démodé
    Risposte facili
    Dilemmi inutili

    A A A cercasi (cerca, sì)
    storie dal gran finale,
    Sperasi (spera, sì)
    Comunque vada, panta rhei*
    And “Singing in the rain”

    Lezioni di Nirvana
    C’è il Buddha in fila indiana
    Per tutti un’ora d’aria, di gloria (ale!)
    La folla grida un mantra
    L’evoluzione inciampa
    La scimmia nuda balla
    Occidentali’s karma
    Occidentali’s karma
    La scimmia nuda balla
    Occidentali’s karma

        Piovono gocce di Chanel
        Su corpi asettici
        Mettiti in salvo dall’odore dei tuoi simili
        Tutti tuttologi col web
        Coca dei popoli
        Oppio dei poveri

    A A A cercasi (cerca sì)
    umanità virtuale
    Sex appeal (sex appeal)
    Comunque vada, panta rhei*
    And “Singing in the rain”

    Refrão

    Quando la vita si distrae
    Cadono gli uomini
    Occidentali’s karma
    Occidentali’s karma
    La scimmia si rialza
    Namaste**, allez***!

    Refrão

    Omm.

Vejamos agora a tradução para português tendo em conta o seguinte:

* "Panta rhei" é um termo grego, πάντα ῥεῖ no original arcaico, que significa "tudo flui", possivelmente proferida por Heráclito.

** "Namaste" é uma palavra hindu, नमस्ते no original, que significa "olá".

*** "Allez" é uma palavra francesa que significa "vamos".

    Ser ou não ser
    A dúvida de Hamlet
    Contemporâneo como o Homem do Neolítico
        Mantém-te confortável na tua gaiola 2x3
        Intelectuais nos cafés
        A lógica da Internet
        Sócios honorários do clube dos egoístas anónimos
    A inteligência está fora de moda
    Respostas fáceis
    Dilemas inúteis

    Procuram-se grandes finais
    Por eles se espera
    Seja como for, tudo flui
    E "Singing in the Rain"

    Lições do Nirvana
    É o Buda em fila indiana
    Para todos uma hora de divertimento, de glória
    O povo grita um mantra
    A evolução tropeça
    O macaco nu dança
    É o karma ocidental

    Gotas de Chanel caem
    Nos corpos asséticos
    Salva-te do cheiro dos teus semelhantes
    Todos sabem tudo com a Web
    Cocaína das massas
    Ópio dos pobres

    Procura-se
    A humanidade virtual
    Sex appeal
    Seja como for, tudo flui
    E "Serenata à Chuva"

    Quando a vida se distrai
    O Homem cai
    É o karma ocidental
    O macaco volta a ficar de pé
    Olá, vamos!

É uma crítica aberta à sociedade atual, com toda a sua superficialidade, egocentrismo, narcisismo, imediatismo e centrada na Internet.

A referência ao Macaco Nu é invocativa do livro homónimo de Desmond Morris, The Naked Ape: A Zoologist's Study of the Human Animal que olha para a espécie humana e compara-a com os outros animais.

A mensagem que transparece da música é que com o estado atual da sociedade, o Homem "afunda-se" para que o seu lado "Macaco", com todo o comportamento não humano associado, se erga. Ao contrário de muitas críticas que vi, a presença do macaco em palco não é somente um elemento alegórico e despropositado mas antes a invocação desta mensagem.

Depois da canonização dos pastorinhos em Portugal pelo Papa Francisco e o Tetra-Campeonato do Benfica, a vitória do Salvador Sobral, embora justa, foi inesperada. Pelos vistos o Festival da Eurovisão e o público europeu ainda têm salvação. Talvez nestas lides o macaco ainda não ficou de pé e o pensamento do macaco nu ainda governa.





quarta-feira, julho 13, 2016

Joel Branco: Piquenique

Ainda na senda do nosso amigo Cangurik, trago-vos outra música interpretada por Joel Branco.

Desta feita, trata-se da música "Piquenique". Lembro-me perfeitamente do coro de crianças e dos versos engraçados que o Joel Branco ia cantando para rimar com o nome das crianças: "Luís, tens uma formiga no nariz"!

Vamos lá, mais uma vez para a memory lane.

Piquenique, piquenique, piquenique
Mais um piquenique
Piquenique, piquenique, piquenique
Vamos passear
Piquenique, piquenique, piquenique
Mais um piquenique
Piquenique, piquenique, piquenique
Todos a cantar:

"quenique mais um piqueni
  quenique mais um piqueni"

Talvez haja um pinheiro
Que é bravo, altaneiro
Deixando a resina escorrer
Ou um outro que é manso
Mais sombra e descanso
Com pinhas, pinhões p'ra comer

Eucaliptos a par
Que nos deixam no ar
Um cheirinho que só nos faz bem
O sobreiro em repouso
De tronco rugoso
Com cortiça e bolotas também

Lá vamos...

Piquenique, piquenique, piquenique
Mais um piquenique

"Aurora, Aurora vamos embora"!

Piquenique, piquenique, piquenique
Vamos passear

"Ó João, João não te sentes no chão"!

Piquenique, piquenique, piquenique
Mais um piquenique

"Gaspar, Gaspar põe-te a cavar"!

Piquenique, piquenique, piquenique
Todos a cantar:

"quenique mais um piqueni
  quenique mais um piqueni"

Castanheiros que dão
Os ouriços que são
As castanhas que alguém assará
Um carvalho imponente
Parece que é gente
Azinheira, bolotas, sei lá

E mais tarde na hora
De virmos embora
Apanhamos o lixo em redor
É bonito o asseio
Sujar é tão feio
Com tudo limpinho é melhor

Lá vamos...

Piquenique, piquenique, piquenique
Mais um piquenique

"Ó Zé não faças banzé"!

Piquenique, piquenique, piquenique
Vamos passear

"Ah, Ah, ó Luís tens uma formiga no nariz"!

Piquenique, piquenique, piquenique
Mais um piquenique

"Ó Carlota não apanhes bolota"!

Piquenique, piquenique, piquenique
Todos a cantar

Piquenique, piquenique, piquenique
Mais um piquenique

"Atão J'aquina, 'tás cheia de resina"!

Piquenique, piquenique, piquenique
Vamos passear

"Man'el não te esqueças do farnel"!

Piquenique, piquenique, piquenique
Mais um piquenique

"Isabel 'tás toda suja de mel, Isabel"!

Piquenique, piquenique, piquenique
Todos a cantar:

"quenique mais um piqueni
  quenique mais um piqueni
  quenique mais um piqueni
  quenique mais um piqueni"

Piquenique, piquenique



segunda-feira, maio 09, 2016

Filme de Animação Robinson Crusoé 2016

No sábado passado fui ver o filme Robinson Crusoé com o "meu mais velho".



A sinopse é esta:

Numa pequena ilha paradisíaca, Terça-feira, um papagaio bastante divertido vive com um grupo de animais amigos. No entanto, Terça-feira não para de sonhar como será o resto do mundo. 

Depois de uma violenta tempestade, Terça-feira e seus amigos dão de caras com uma criatura estranha: Robinson Crusoé. Terça-feira vê imediatamente em Robinson a certeza de que há um mundo para além da ilha. Da mesma forma, Robinson logo percebe que a chave para sobreviver na ilha é através da ajuda do papagaio e dos outros animais. 

Não é fácil no início, já que os animais não falam "humano", mas lentamente, todos eles começam a viver juntos em harmonia, até ao dia em que a sua vida confortável é posta em causa por dois gatos, também eles náufragos, que desejam assumir o controlo da ilha. 

E no meio da batalha que se segue, Crusoé e os animais seus amigos depressa descobrem o verdadeiro poder da amizade, no meio de todas as adversidades.

É um filme franco-belga que se afigura como uma excelente alternativa ao main stream dos Estados Unidos.

Do ponto de vista técnico a animação é cuidada, com bastante preocupação com os detalhes das texturas e ambientes recriados que enriquecem a qualidade do produto final.

As personagens são bem pensadas, com alguma profundidade de caráter e com papéis bem definidos no desenrolar da estória.

Quanto à estória propriamente dita, peca talvez por não ter a cadência necessária para prender o espetador à tela. Fiquei uma ou duas vezes alheado do filme e o "meu mais velho" chegou a perguntar a dada altura se o filme tinha terminado. Não quero com isto dizer que o filme é maçudo ou sem ação. Muito pelo contrário. O que estou a apontar é a aparente falta de ponderação entre os momentos com mais ação e outros com menos ação. Se algo do mesmo tipo se repete por demasiado tempo pode criar uma sensação de desconforto em quem vê o filme. No final, tem-se a sensação que o filme é cortado para colocar um fim na estória.

Se voltava a ver o filme? Voltava. É um bom filme? Sem dúvida. Pela atenção ao pormenor e pela qualidade que já se atingiu no campo da animação por computador. Ao ponto em que nos esquecemos da tecnologia (*) para nos centrarmos naquilo que verdadeiramente interessa: a estória.

(*) No meu caso isto é quase impossível, talvez por "calo" profissional. Admiro a forma como trataram o render dos materiais, principalmente nas cenas mais "molhadas". Admiro também, mais uma vez, o cuidado e a atenção dados às texturas: madeira riscada, madeira partida, objetos metálicos, objetos molhados, cabelos, pelos, areia e rocha... um festival quase "gastronómico" para os olhos.

quinta-feira, maio 21, 2015

Festival Eurovisão 2015

Mais uma vez não podia faltar a minha opinião sobre a edição deste ano do Festival Eurovisão da Canção.

Procuro, primordialmente, sonoridades novas e interessantes. Considero-me com algum gosto musical e, desde que a música seja boa, ouço todos os géneros.

Tenho pena que, cada vez mais, a língua de eleição seja o inglês. Agrada-me a diversidade cultural e penso que podemos ser unidos nessa mesma diversidade.

Para este ano faço a seguinte seleção.

Estónia

Uma música excêntrica, talvez com algumas influências de Nick Cave & The Bad Seeds. Existem também alguns solos discretos de guitarra elétrica que se assemelham aos de Mark Knopfler... será por isso que gosto desta música?


Reino Unido

Sonoridade de disco riscado, visual e vozes dos anos 20 (do século XX), apimentadas com melodias mais digitais. Uma combinação diferente e inesperada.


Montenegro

Só pelos primeiros 30 segundos já merece ter uma posição de destaque no Festival. Depois, é cantada em Montenegrino, uma escolha de louvar. Uma música assente em raízes tradicionais, com muito bom gosto.


Quanto a Portugal, espero que a Leonor Andrade tenha corrigido as afinações. A presença em palco é fundamental (e ela tem-na) e a voz é bem colocada e poderosa mas eu sou particularmente sensível a desafinações. A música não é desengraçada, seguindo o estilo do seu compositor, mas também não é nada de radicalmente novo.



sexta-feira, abril 24, 2015

Conto - O Farol (2)

As escadas em caracol terminavam num patamar em madeira mesmo por baixo da maquinaria que fazia girar a luz forte do farol. Entre esta e o patamar não havia muito espaço... talvez uns dois metros de pé direito. O suficiente para albergar um estrado em jeito de cama, uma mesa, uma cadeira e um baú. O acesso à maquinaria fazia-se por uma escada vertical em madeira. Lá fora, o vento começara a soprar com maior intensidade e arremessava as gotas de chuva cada vez mais pesadas contra os postigos, de forma claramente audível. Um calafrio percorreu a espinha de Estêvão. Pressentiu que algo não iria correr bem naquela noite. Pela primeira vez sentiu medo. Um medo difícil de definir. Um sentimento de clausura e de solidão embalado pelas ondas do mar.

quinta-feira, abril 23, 2015

Conto - O Farol (1)

Estava uma noite com o céu carregado. Nem a lua ou as estrelas conseguiam aparecer sob o manto espesso de nuvens que se abatia em redor do velho farol. O caminho para lá chegar era íngreme, pedregoso e o avançar da escuridão dificultava ainda mais a tarefa para quem não conhecesse de cor todas as armadilhas daquela rota sinuosa. Tal não era o caso de Estêvão. Agarrado ao seu cachimbo fumegante, precisava apenas do instinto e da memória para chegar à porta enferrujada que dava acesso à edificação. Vasculhou no bolso das calças e encontrou a chave pesada, comida pelo passar do tempo, de dentes bem largos e limados pelo uso sucessivo. A porta abriu-se e a sua mão escorregou pela parede à altura certa para ligar um pequeno interruptor que inundou com uma luz fria e pálida o patamar inferior do velho farol. Fechou a porta atrás de si. Olhou para cima, para as escadas em caracol que o levariam aos patamares superiores e sentiu o cheiro da humidade salgada misturada com ferrugem. Um pingo ou outro caiam dos degraus e, por vezes, estragavam na sua passagem uma ou outra teia de aranha. Agarrado ao corrimão de pintura esverdeada, pé ante pé, foi subindo, à medida que provocava o ranger da estrutura metálica. Os postigos dispostos ao longo das escadas estavam a ser pintalgados por minúsculas gotas de chuva, prenúncio de uma tempestade que se avizinhava.

segunda-feira, abril 20, 2015

Estou vivo!

Neste interregno muita coisa aconteceu na minha vida. Hoje só passei para dizer que estou vivo e que a minha veia de prosa está inchada. Provavelmente começarei a colocar algum conteúdo que ressuscite este blogue. Aguardem.

segunda-feira, julho 22, 2013

Leitura em papel vs. Leitura em ecrã

Um estudo recente (2012) levado a cabo por Anne Mangen et al pretendeu investigar as consequências da leitura em papel versus a leitura em ecrã no que concerne à compreensão dos textos.  A conclusão deste estudo é de que a leitura de narrativas lineares e de textos expositivos num ecrã de computador leva a uma compreensão mais pobre do que quando a leitura dos mesmos textos é feita em papel.

Este estudo contou com a colaboração de 72 estudantes do 10º. ano de duas escolas da Noruega.
A versão impressa dos texto utilizava folhas A-4 e os ecrãs de computador eram do tipo LCD com tamanho de 1280x1024 pixeis. Os textos escolhidos tinham entre 1400 e 1600 palavras, com ilustrações pelo meio e eram escritos a preto em Times New Roman a 14 pontos.

No capítulo introdutório, os autores constatam que o paradigma da leitura, principalmente para as pessoas mais novas, está mudar para o ecrã em detrimento do papel.

Por outro lado, citando DeStefano e LeFevre (2007), apontam que a estrutura de hipertexto tende a aumentar as necessidades cognitivas no que diz respeito às tomadas de decisão e processamento visual. Esta carga cognitiva adicional prejudica o desempenho ao nível da compreensão da leitura.

Wästlung et al (2005), nas suas investigações, constatam que o desempenho na escrita e na compreensão da escrita é inferior num ambiente computorizado quando comparado com o papel. Adicionalmente, os sujeitos que faziam a sua leitura num computador reportaram níveis mais elevados de stress e cansaço do que os que faziam a leitura em papel. Concluíram assim que ler e trabalhar com um computador resulta numa maior carga cognitiva comparativamente com o papel.

Uma implicação importante prende-se com a memória. Sabe-se que memória recordatória tende mais a desvanecer com o tempo do que a memória baseada no conhecimento. Sabe-se também que a memória baseada no conhecimento é um indicativo de melhor aprendizagem. Noyes e Garland (2003) estudaram a compreensão qualitativa e concluíram que esta depende do meio utilizado. As frequências da memória recordatória duplicavam comparativamente com a memória baseada no conhecimento para o grupo utilizador de ecrãs de computador ao passo que o grupo utilizador de papel registava frequências similares entre os dois tipos de memória. Os autores concluíram que "as características dos ecrãs de computador (taxa de refrescamento, altos níveis de contraste e flutuação da luminância) interferem com o processamento cognitivo da memória de longa duração".

Num estudo posterior, Garland e Noyes (2004) chegam à seguinte conclusão: "a transferência de conhecimento foi mais rápida nos sujeitos que aprendiam através de material impresso, sugerindo menos interferências no processo de esquematização e, assim, o conhecimento tende a ser melhor assimilado e mais rapidamente recuperado quando se utiliza o formato papel".

Num estudo envolvendo crianças, Kerr e Symons (2006) concluem que estas liam os textos mais lentamente em computadores do que em papel e recordavam-se de mais informação acerca do que tinham lido no computador do que em papel. Contudo, as crianças eram mais eficientes a compreender os textos quando os liam em papel. Estas descobertas sugerem que "quando é dado tempo suficiente, as crianças podem ser capazes de compreender iguais quantidades de informação em computador ou em papel. Quando se limita o tempo de leitura, a compreensão torna-se menos eficiente em computador".

Johnson e Nádas (2009) fizeram estudos com professores na tarefa de avaliação e concluem que a compreensão destes era mais desafiada quando liam em ecrã do que quando liam em papel.

Relativamente às discussões, este estudo aponta para as seguintes diferenças entre os sujeitos que leram em papel e os sujeitos que leram em ecrã:
  • Os sujeitos que leram textos em papel tiveram um desempenho significativamente melhor;
  • Os sujeitos que leram textos em papel tiveram significativamente maior pontuação em testes de compreensão.
Considerando o comprimento do texto e o facto do texto em computador estar no formato PDF, a diferença de desempenho na compreensão pode estar relacionado com problemas de navegação dentro do documento digital. Quando se lê em ecrã, é inevitável rolar o texto a não ser que este caiba no tamanho do ecrã. É sabido que rolar os textos dificulta o processo de leitura porque impõe uma instabilidade espacial. Esta pode afetar negativamente a representação mental do texto por parte do leitor, repercutindo-se também negativamente na sua compreensão.

Outro problema de navegação diz respeito à forma como se tem acesso a todo o texto. A evidência sugere que os leitores recordam-se onde uma parte do texto apareceu (ex.: perto do canto superior ou no fundo da página). Sabe-se também empiricamente e através de investigação teórica que ter uma boa representação mental espacial do layout físico do texto ajuda à compreensão da leitura. Assim, o caráter fixo do texto impresso em papel ajuda à construção da representação espacial do texto por parte do leitor, proporcionando pistas inequívocas e fixas para a memorização e recordação do texto. Por contraste, os que leem em ecrãs de computadores estão restringidos a verem (e sentirem) apenas uma página de texto em qualquer altura da sua leitura. Portanto, a sua visão sobre a organização, estrutura e fluxo do texto pode ser dificultada pelo acesso limitado a todo o texto.

Ackerman e Goldsmith (2011) fazem uma conclusão interessante. As pessoas tendem a perceber o meio impresso como mais adequado para a aprendizagem empenhada e o meio digital (neste caso, o computador) como mais adequado para uma leitura rápida e superficial de textos curtos como notícias, correio eletrónico, fóruns, etc.

A explicação da diferença entre ler em computador e ler em papel pode estar relacionado com as diferenças de luminosidade entre as duas modalidades. Os ecrãs de computador do tipo LCD causam fadiga visual pelo facto de emitirem luz. Por contraste, a tecnologia dos e-books, baseada em tinta eletrónica, utilizada pelos Kindle e Kobo, apenas reflete a luz ambiente, sendo, portanto, mais amiga dos leitores.

Podem ler o artigo completo em Reading linear texts on paper versus computer screen: Effects on reading comprehension

sexta-feira, julho 19, 2013

Interfaces rápidas

Se há alturas em que os utilizadores desesperam quando a interface é demasiado lenta na resposta, também podem haver problemas se for demasiado rápida.

"Os utilizadores podem não reparar em coisas que mudam rapidamente e, mesmo quando reparam, os elementos do ecrã que mudam rapidamente são mais difíceis de entender".

Algumas frases e conceitos a reter:

  • É, quase sempre, melhor que uma interface responda rapidamente.
  • A memória humana decai rapidamente. Logo, as pessoas podem esquecer-se de algumas coisas que estavam a fazer enquanto esperam por um computador lento.
  • Quando as mudanças acontecem num "piscar de olhos", os utilizadores podem "piscar os olhos" e não notar a diferença. Podem, por exemplo, estar a olhar para outra parte do ecrã no breve intervalo de tempo em que essa mudança acontece.
  • Também podem surgir problemas quando os utilizadores reparam na mudança rápida mas não têm tempo para interiorizar aquilo que aconteceu. Isto ocorre em elementos do tipo "carrossel", "rotores" e outros elementos de design que rodam ou mudam automaticamente. Quando o utilizador decide que algo é do seu interesse, essa coisa desaparece do ecrã e é substituída por outra que não suscita interesse. Este problema é mais acentuado em utilizadores seniores ou com necessidades especiais.
Para lerem o post de Jakob Nielsen na íntegra: When the UI is Too Fast

terça-feira, setembro 04, 2012

Privateering

"Privateering is about an invitation to join a ship's company. I feel it relates to me, certainly in terms of touring. I really get a buzz out of having this little group of people that goes and does this stuff. I enjoy being in command of it, I enjoy the band, I enjoy the crew thing very much. Even though privateering is a historical portrait, in the way that a privateer... his life and the kind of person that he is definitely parallels with touring". Mark Knopfler


Mark Knopfler instalou-se definitivamente na sonoridade mais calma e folk (com uma forte vertente para os blues) com este novo "Privateering", o seu sétimo trabalho a solo, distanciando-se cada vez mais do que estaríamos habituados com os Dire Straits... mas isso não é uma coisa má. Hey! Don't get me wrong! Continuo a gostar bastante de Dire Straits! Mark Knopfler mostra-nos apenas que é tão bom no rock como é agora no folk, blues ou country. Devo confessar que não morro de amores pelos seus blues em "Don´t Forget Your Hat", "Got to Have Something", "Today is Okay" ou "Hot or What" (embora goste de "Miss You Blues") aprecio mais as melodias e instrumentos utilizados em músicas como "Redbud Tree", "Hawl Away", "Privateering", "Go, Love" ou "Kingdom of Gold". "Corned Beef City" e "I Used to Could" são das suas músicas mais rockeiras. No lado oposto, temos o tom meloso de "Radio City Serenade". "Gator Blood" transmite uma imagem stereo a parecer que Mark Knopfler e a sua banda fizeram da nossa sala o seu estúdio de gravação. "After the Beanstalk" encerra este duplo álbum remetendo-nos para um tom mais country que podia muito bem ser ouvido num antigo saloon de cowboys.

Em jeito de conclusão, faz-me falta ouvir mais a guitarra de Mark Knopfler. Ele próprio admite concentrar-se agora nas letras das músicas, dando-lhes mais significado ao encurtar os seus solos de guitarra. "Privattering" é um álbum duplo e isto deve-se ao facto de Mark Knopfler estar numa fase bastante criativa. Segundo as suas palavras, "if that's just panic of time running out, I really don't know"! Esperemos que Mark Knopfler continue por muito tempo esta sua fase bastante criativa.

Mais um álbum a comprar para a minha coleção.



segunda-feira, setembro 03, 2012

Isto não é um post no meu blogue

Muitas vezes aquilo que parece, não é. Hoje acabei de descobrir isso mesmo ao descer ao piso -1 do local onde trabalho. Comecemos por colocar uma imagem que ilustre este não post.



Tem aspeto de porta, parece uma porta, tem todos os elementos que caracterizam uma porta, cheira a porta e... no entanto... não é uma porta. É, quando muito, uma semiporta. Senão vejamos:

"Porta - abertura em geral retangular, feita numa parede ao nível do pavimento, para permitir a entrada ou saída" in Infopédia.

Existe uma definição mais lacónica:

"Portaabertura para entrar ou sair." in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

A semiporta em questão não permite sair. Não verifiquei do outro lado para saber se permitia a entrada. Daí que tenha dito que, quando muito, é uma semiporta. Se não der para entrar também, direi que é uma não porta, uma sucedânea de porta ou, o que é mais grave, uma simulação de porta.

Incrédulo com o panorama que estava à minha frente, enchi-me de coragem e tentei transpor a dita semiporta. Empurrei o manípulo horizontal e, qual não é o meu espanto, a semiporta abriu-se, permitindo-me ter um vislumbre do mundo que está do outro lado da semiporta. Pareceu-me de facto o lado exterior do edifício, com ligação para o espaço aberto que é o nosso planeta terra a poucos metros de distância. Fiquei-me por aqui. Gosto de cumprir regras e não transpuz a semiporta. Confesso... tive receio do que pudesse existir do outro lado. Uma falsa porta como esta pode conduzir-nos a uma falsa realidade... pode dar-nos passagem para outro espaço-tempo que não o nosso, fazendo-nos viver uma vida falsa, porque vivida nessa falsa realidade. Vi demasiados episódios do Fringe para sequer tentar atravessar a semiporta.

Se a porta elétrica do piso 0 alguma vez não funcionar, não sei como poderei sair do edifício... pelo menos sem desvirtuar o conceito que tenho enraizado desde a minha infância sobre janelas. Isto para já não falar numa situação de emergência!

quinta-feira, julho 26, 2012

O desrespeito pela língua portuguesa

Hoje fui à mailbox do meu papy e eis se não quando, deparo-me com um flyer da Pizza Hut... esse franchising que prolifera por aí.
God! Juro que não percebo essa ideia de que tudo o que é estrangeiro é que é cool! Vejam o que vinha nesse flyer (parte esquerda da imagem abaixo).


Tanta coisa só para não chamar "PIZZA CABRA", porque é feita com queijo de CABRA (a minha sugestão, do lado direito da imagem)!

Parece que já os estou a ouvir dizer:

- Ai, não! Porque chèvre é mais fino e tal! Porque é feito com queijo chèvre!

Mais respeito pela língua de Camões, meus senhores! E comecem a chamar os bois (ou cabras) pelos nomes!

Descubra as 3 diferenças... (#3)


quinta-feira, julho 05, 2012

Prometheus

Bem... já passou algum tempo desde que coloquei o último post de cariz mais pessoal!

Desta feita vou falar-vos do último filme que fui ver ao cinema e que dá pelo nome "Prometheus".


Já li muitas críticas negativas sobre este filme e alguns dos meus amigos corroboraram e partilharam dessas críticas antes que me deslocasse ao cinema para vê-lo.

Primeiro vou falar-vos das razões que me levaram a escolher este filme para voltar às salas de cinema dois anos depois da última incursão (por causa do filme "Avatar" de James Cameron):
  • Ridley Scott é um dos meus realizadores de culto. Basta mencionar filmes como: "Blade Runner - Perigo Iminente", "Alien - O Oitavo Passageiro", "1492: Cristóvão Colombo", "Gladiador" e "Robin Hood";
  • Prometheus é considerado uma prequela de "Alien - O Oitavo Passageiro".
Deixei passar propositadamente dois dias antes de fazer a minha crítica. Por um lado, para ter mais sangue frio para falar sobre a experiência cinematográfica. Por outro, para digerir melhor tudo o que vi.

A melhor forma de fazer a crítica, é salientar os aspetos positivos e negativos, tentando não usar spoilers.

Aspetos Positivos
  • O 3D é usado com conta, peso e medida, acrescentando mais realismo ao filme. É mesmo "Real 3D".
  • A fotografia é cuidada. Do melhor que tenho visto. A sequência inicial é particularmente bela e beneficia muito do "Real 3D".
  • O desempenho dos atores é, de uma forma geral, boa. Destaca-se dos restantes Michael Fassbender no desempenho notável da personagem David (o robô humanóide de serviço). Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que é o melhor desempenho em papéis deste género de todos os filmes e séries que já assisti.
  • A atenção aos detalhes é impressionante. Não falo propriamente da narrativa mas antes de tudo o que se prende com aspetos visuais (com uma exceção mencionada nos aspetos negativos).
  • A cadência do filme mantém-nos sempre "agarrados" à cadeira, do princípio ao fim do filme.
Aspetos Negativos
  • Os estereótipos das personagens usadas nos filmes da saga "Alien" continuam: os bonzinhos, os heróis incidentais, os durões, os medricas, os malévolos.
  • As personagens têm, de uma forma geral, uma personalidade muito superficial.
  • Algumas partes da narrativa são excessivamente previsíveis, estilo "estes vão ser os primeiros a morrer" e noutras vê-se que falta algo mais.
  • A caracterização de Guy Pearse no papel de ansião não se enquadra com o restante nível do filme. Parece que contrataram o maquilhador de um filme da categoria B.
Conclusão

Basta dizer que será com certeza um DVD a adquirir, desde que seja um Director's Cut. Haverá com certeza algumas cenas extra que tornarão o filme ainda melhor e unirão as pontas soltas deixadas na versão para cinema.

Os aspetos positivos compensam largamente os aspetos negativos. Trata-se de um bom filme de ficção científica... e há tão poucos hoje em dia.

Embora talvez não esteja ao nível de "Alien - O Oitavo Passageiro", é uma boa espécie de prequela que aponta para uma nova saga Alien.

quarta-feira, maio 23, 2012

Princípios Essenciais do Design de Interação: (5/5) - Retorno

Transmita aos utilizadores a aceitação de uma interação e proporcione informação sobre:
  • Localização
  • Estado ou progresso
  • Eventos futuros ou possibilidades
  • Completude ou fecho.
É importante que isto se faça sem interromper a experiência ou as ações do utilizador. O retorno deve complementar a experiência e não complicá-la.

Cada interação deve produzir uma reação percetível e compreensível. Faça saber que os comandos dos utilizadores foram compreendidos e executados.

Devem validar-se as interações. Falhar na validação das interações pode levar a repetições desnecessárias e a possíveis erros ou enganos.

Deve-se, por exemplo, permitir fazer undo para reverter as escolhas ou corrigir enganos. Os enganos são escolhas incorretas mas nem sempre significam erros para o sistema em causa e, por isso, podem não ser percebidos como tal.

Adaptado de Adobe TV: Classroom: Five Essential Principles of Interaction Design.

quinta-feira, maio 10, 2012

Princípios Essenciais do Design de Interação (4/5) - Previsibilidade

Para minimizar a confusão e a frustração dos utilizadores, deve-se comunicar previamente (implícita ou explicitamente) o que acontece depois de uma interação.

O comportamento do visitante pode revelar se pode ou não prever precisamente o que vai acontecer a seguir a uma interação:

  • Quando não sabem o que podem fazer ou o que irá acontecer, irão tentar interagir com qualquer coisa que pareça clicável;
  • Quando sabem o que podem fazer e sabem o que irá acontecer, irão interagir apenas com o que é necessário para completarem a tarefa e atingirem o seu objetivo.
Os padrões diferem quando se trata de um jogo, exploração ou cumprir uma tarefa. Por exemplo, no caso de um jogo, ser previsível pode não ser uma coisa boa.

Podem usar-se pré-visualizações para estipular as expetativas e definir as restrições ao nível das interações novas ou complexas. Pode, por exemplo, mostrar-se o que é possível ser feito na aplicação enquanto a interface carrega ou apresentar uma vista de alto nível do sistema organizacional ou estrutura.

As etiquetas, instruções, ícones e imagens devem ser usados para estipular as expetativas:
  • Do que se pode fazer;
  • Do que vai acontecer;
  • Para onde irá o visitante;
  • Como o interface irá responder.
A previsibilidade melhora assim a experiência do utilizador, na medida em que aquilo que este aprendeu previamente pode ser aplicado em futuras interações.
Adaptado de Adobe TV: Classroom: Five Essential Principles of Interaction Design.


Festival Eurovisão da Canção 2018

Como é tradição, aqui vai a minha apreciação do Festival da Eurovisão deste ano. E o vencedor é... ...novamente Salvador Sobral! Sim. ...