Um blog de Vítor Carvalho. Algumas reflexões sobre acessibilidade, usabilidade e design para a Web, ideias, desabafos, viagens, humor, crítica e fotografias...
Como é tradição, aqui vai a minha apreciação do Festival da Eurovisão deste ano.
E o vencedor é...
...novamente Salvador Sobral!
Sim. É verdade. Salvador salvou o Festival com a canção que interpretou durante o "intervalo". Quanto ao resto, foi paisagem. E, desculpem-me a franqueza, mas não consigo ver nada de interessante na música da "galinha" israelita.
Longe vão os tempos de "Ah-Bah-Nee-Bee" (1978)...
""Hallelujah" (1979) ...
ou mesmo de "Diva" (1998) ...
Fiquem então com o verdadeiro vencedor deste ano com a sua atuação no festival...
ou com o vídeo oficial de "Mano a Mano".
Vim chorar a minha pena
No teu ombro e, afinal,
A mesma dor te condena
Choras tu do mesmo mal
Irmãos gémeos no tormento
Filhos da mesma aflição
Nenhum dos dois tem alento
Pr'a dar ao outro uma mão
O amor não nos quer bem Ninguém nos há-de valer Se um perde aquilo que tem E o outro não chega a ter Só nos resta o mano a mano Se não queremos ficar sós Deixa lá o teu piano Namorar a minha voz
Desta vez é um comentário a posteriori, até porque assim se torna mais fácil fazer prognósticos.
Comecemos pelo concurso interno português das canções candidatas à representação do nosso país. De todas elas só duas me chamaram verdadeiramente a atenção.
A primeira música, composta pela Luísa Sobral e interpretada pelo "excêntrico" (?) Salvador Sobral, "Amar pelos Dois", não é uma música festivaleira. É antes uma balada romantico-melancólica, com arranjos de bossa nova.
Se um dia alguém
Perguntar por mim
Diz que vivi
Para te amar
Antes de ti
Só existi
Cansado e sem nada p’ra dar
Meu bem Ouve as minhas preces Peço que regresses Que me voltes a querer Eu sei Que não se ama sozinho Talvez devagarinho Possas voltar a aprender
Se o teu coração
Não quiser ceder
Não sentir paixão
Não quiser sofrer
Sem fazer planos
Do que virá depois
O meu coração
Pode amar pelos dois
É uma canção simples, efetiva, com uma mensagem também ela simples e efetiva de um amor, possivelmente não correspondido, que alguém se dispõe a manter e a sofrer só para que ele não se vá.
Na conferência de imprensa que ocorreu depois do festival, um jornalista conotado com uma revista LGBT fez notar que a música "Amar pelos Dois" não tem pronomes de género, podendo ser cantada por um homem ou por uma mulher, dirigindo-se a um homem ou uma mulher. Luísa Sobral disse que isso não foi propositado. Disse também que quando escreveu e compôs a música para o seu irmão fez de forma a que ela também a pudesse cantar e, talvez por isso, o género não apareça.
Outra que tem uma melodia interessante e uma voz ainda mais interessante (a da cantora Kika Cardoso) é "Nova Glória" dos Viva La Diva, composta por Nuno Gonçalves. Embora original, os contra-tenores (Luís Peças e João Paulo Ferreira) não me convenceram. A parte final, excessivamente gritada, poderia ser melhorada.
Sou e o que fui passou
delirei com amor
Mil memórias
Ser ou não quis parecer
algo por dizer,uma história
Nova Glória e sonhos nunca cumpridos, nunca ouvidos.
Quero mais, pois dá-me
Amor, tão longe a dor, um brinde à cor, vejo ao longe o mar, juro-me não falhar…
Sim, decidir por ti
quis seguir, senti a vitória.
Quero mais pois dá-me
Refrão
Grito intenso
um comum bom senso
rezo o mesmo terço, quero mais
pois dá-me
Refrão
Para além da música portuguesa interpretada por Salvador Sobral, poucas se destacaram na grande final do Festival Eurovisão.
Uma delas é a música italiana, cantada por Francesco Gabbani, intitulada "Occidentali's Karma". Trata-se de uma música "festivaleira", moderna, bem feita, bem interpretada e bem letrada. Faz-me apenas confusão que "quase todos" os italianos cantem com aquela voz áspera... assim de repente, a voz de Francesco Gabbani faz lembrar Eros Ramazzotti mas poderia também dizer Toto Cutugno. Na letra que a seguir transcrevo, as partes a itálico não fazem parte da versão Festival Eurovisão da música. Compreende-se que a primeira parte obliterada destina-se a encurtar um andamento de igual cadência melódica e a segunda talvez tenha sido rasurada pela referência à marca Chanel.
Essere o dover essere
Il dubbio amletico
Contemporaneo come l’uomo del neolitico Nella tua gabbia 2×3 mettiti comodo Intellettuali nei caffè Internettologi Soci onorari al gruppo dei selfisti anonimi
L’intelligenza è démodé
Risposte facili
Dilemmi inutili
A A A cercasi (cerca, sì)
storie dal gran finale,
Sperasi (spera, sì)
Comunque vada, panta rhei*
And “Singing in the rain”
Lezioni di Nirvana C’è il Buddha in fila indiana Per tutti un’ora d’aria, di gloria (ale!) La folla grida un mantra L’evoluzione inciampa La scimmia nuda balla Occidentali’s karma Occidentali’s karma La scimmia nuda balla Occidentali’s karma
Piovono gocce di Chanel Su corpi asettici Mettiti in salvo dall’odore dei tuoi simili Tutti tuttologi col web Coca dei popoli Oppio dei poveri
A A A cercasi (cerca sì)
umanità virtuale
Sex appeal (sex appeal)
Comunque vada, panta rhei*
And “Singing in the rain”
Refrão
Quando la vita si distrae
Cadono gli uomini
Occidentali’s karma
Occidentali’s karma
La scimmia si rialza
Namaste**, allez***!
Refrão
Omm.
Vejamos agora a tradução para português tendo em conta o seguinte:
** "Namaste" é uma palavra hindu, नमस्ते no original, que significa "olá".
*** "Allez" é uma palavra francesa que significa "vamos".
Ser ou não ser
A dúvida de Hamlet
Contemporâneo como o Homem do Neolítico Mantém-te confortável na tua gaiola 2x3 Intelectuais nos cafés A lógica da Internet Sócios honorários do clube dos egoístas anónimos
A inteligência está fora de moda
Respostas fáceis
Dilemas inúteis
Procuram-se grandes finais
Por eles se espera
Seja como for, tudo flui
E "Singing in the Rain"
Lições do Nirvana É o Buda em fila indiana Para todos uma hora de divertimento, de glória O povo grita um mantra A evolução tropeça O macaco nu dança É o karma ocidental Gotas de Chanel caem Nos corpos asséticos Salva-te do cheiro dos teus semelhantes Todos sabem tudo com a Web Cocaína das massas Ópio dos pobres
Procura-se
A humanidade virtual
Sex appeal
Seja como for, tudo flui
E "Serenata à Chuva" Quando a vida se distrai
O Homem cai
É o karma ocidental
O macaco volta a ficar de pé
Olá, vamos!
É uma crítica aberta à sociedade atual, com toda a sua superficialidade, egocentrismo, narcisismo, imediatismo e centrada na Internet.
A mensagem que transparece da música é que com o estado atual da sociedade, o Homem "afunda-se" para que o seu lado "Macaco", com todo o comportamento não humano associado, se erga. Ao contrário de muitas críticas que vi, a presença do macaco em palco não é somente um elemento alegórico e despropositado mas antes a invocação desta mensagem.
Depois da canonização dos pastorinhos em Portugal pelo Papa Francisco e o Tetra-Campeonato do Benfica, a vitória do Salvador Sobral, embora justa, foi inesperada. Pelos vistos o Festival da Eurovisão e o público europeu ainda têm salvação. Talvez nestas lides o macaco ainda não ficou de pé e o pensamento do macaco nu ainda governa.
Ainda na senda do nosso amigo Cangurik, trago-vos outra música interpretada por Joel Branco.
Desta feita, trata-se da música "Piquenique". Lembro-me perfeitamente do coro de crianças e dos versos engraçados que o Joel Branco ia cantando para rimar com o nome das crianças: "Luís, tens uma formiga no nariz"!
Vamos lá, mais uma vez para a memory lane.
Piquenique, piquenique, piquenique Mais um piquenique Piquenique, piquenique, piquenique Vamos passear Piquenique, piquenique, piquenique Mais um piquenique Piquenique, piquenique, piquenique Todos a cantar: "quenique mais um piqueni quenique mais um piqueni" Talvez haja um pinheiro Que é bravo, altaneiro Deixando a resina escorrer Ou um outro que é manso Mais sombra e descanso Com pinhas, pinhões p'ra comer Eucaliptos a par Que nos deixam no ar Um cheirinho que só nos faz bem O sobreiro em repouso De tronco rugoso Com cortiça e bolotas também Lá vamos... Piquenique, piquenique, piquenique Mais um piquenique "Aurora, Aurora vamos embora"! Piquenique, piquenique, piquenique Vamos passear "Ó João, João não te sentes no chão"! Piquenique, piquenique, piquenique Mais um piquenique "Gaspar, Gaspar põe-te a cavar"! Piquenique, piquenique, piquenique Todos a cantar: "quenique mais um piqueni quenique mais um piqueni" Castanheiros que dão Os ouriços que são As castanhas que alguém assará Um carvalho imponente Parece que é gente Azinheira, bolotas, sei lá E mais tarde na hora De virmos embora Apanhamos o lixo em redor É bonito o asseio Sujar é tão feio Com tudo limpinho é melhor
Lá vamos... Piquenique, piquenique, piquenique Mais um piquenique "Ó Zé não faças banzé"! Piquenique, piquenique, piquenique Vamos passear "Ah, Ah, ó Luís tens uma formiga no nariz"! Piquenique, piquenique, piquenique Mais um piquenique "Ó Carlota não apanhes bolota"! Piquenique, piquenique, piquenique Todos a cantar Piquenique, piquenique, piquenique Mais um piquenique "Atão J'aquina, 'tás cheia de resina"! Piquenique, piquenique, piquenique Vamos passear "Man'el não te esqueças do farnel"! Piquenique, piquenique, piquenique Mais um piquenique "Isabel 'tás toda suja de mel, Isabel"! Piquenique, piquenique, piquenique Todos a cantar: "quenique mais um piqueni quenique mais um piqueni quenique mais um piqueni quenique mais um piqueni" Piquenique, piquenique
No sábado passado fui ver o filme Robinson Crusoé com o "meu mais velho".
A sinopse é esta:
Numa pequena ilha paradisíaca, Terça-feira, um papagaio bastante divertido vive com um grupo de animais amigos. No entanto, Terça-feira não para de sonhar como será o resto do mundo. Depois de uma violenta tempestade, Terça-feira e seus amigos dão de caras com uma criatura estranha: Robinson Crusoé. Terça-feira vê imediatamente em Robinson a certeza de que há um mundo para além da ilha. Da mesma forma, Robinson logo percebe que a chave para sobreviver na ilha é através da ajuda do papagaio e dos outros animais. Não é fácil no início, já que os animais não falam "humano", mas lentamente, todos eles começam a viver juntos em harmonia, até ao dia em que a sua vida confortável é posta em causa por dois gatos, também eles náufragos, que desejam assumir o controlo da ilha. E no meio da batalha que se segue, Crusoé e os animais seus amigos depressa descobrem o verdadeiro poder da amizade, no meio de todas as adversidades.
É um filme franco-belga que se afigura como uma excelente alternativa ao main stream dos Estados Unidos.
Do ponto de vista técnico a animação é cuidada, com bastante preocupação com os detalhes das texturas e ambientes recriados que enriquecem a qualidade do produto final.
As personagens são bem pensadas, com alguma profundidade de caráter e com papéis bem definidos no desenrolar da estória.
Quanto à estória propriamente dita, peca talvez por não ter a cadência necessária para prender o espetador à tela. Fiquei uma ou duas vezes alheado do filme e o "meu mais velho" chegou a perguntar a dada altura se o filme tinha terminado. Não quero com isto dizer que o filme é maçudo ou sem ação. Muito pelo contrário. O que estou a apontar é a aparente falta de ponderação entre os momentos com mais ação e outros com menos ação. Se algo do mesmo tipo se repete por demasiado tempo pode criar uma sensação de desconforto em quem vê o filme. No final, tem-se a sensação que o filme é cortado para colocar um fim na estória.
Se voltava a ver o filme? Voltava. É um bom filme? Sem dúvida. Pela atenção ao pormenor e pela qualidade que já se atingiu no campo da animação por computador. Ao ponto em que nos esquecemos da tecnologia (*) para nos centrarmos naquilo que verdadeiramente interessa: a estória.
(*) No meu caso isto é quase impossível, talvez por "calo" profissional. Admiro a forma como trataram o render dos materiais, principalmente nas cenas mais "molhadas". Admiro também, mais uma vez, o cuidado e a atenção dados às texturas: madeira riscada, madeira partida, objetos metálicos, objetos molhados, cabelos, pelos, areia e rocha... um festival quase "gastronómico" para os olhos.
Mais uma vez não podia faltar a minha opinião sobre a edição deste ano do Festival Eurovisão da Canção.
Procuro, primordialmente, sonoridades novas e interessantes. Considero-me com algum gosto musical e, desde que a música seja boa, ouço todos os géneros.
Tenho pena que, cada vez mais, a língua de eleição seja o inglês. Agrada-me a diversidade cultural e penso que podemos ser unidos nessa mesma diversidade.
Para este ano faço a seguinte seleção.
Estónia
Uma música excêntrica, talvez com algumas influências de Nick Cave & The Bad Seeds. Existem também alguns solos discretos de guitarra elétrica que se assemelham aos de Mark Knopfler... será por isso que gosto desta música?
Reino Unido
Sonoridade de disco riscado, visual e vozes dos anos 20 (do século XX), apimentadas com melodias mais digitais. Uma combinação diferente e inesperada.
Montenegro
Só pelos primeiros 30 segundos já merece ter uma posição de destaque no Festival. Depois, é cantada em Montenegrino, uma escolha de louvar. Uma música assente em raízes tradicionais, com muito bom gosto.
Quanto a Portugal, espero que a Leonor Andrade tenha corrigido as afinações. A presença em palco é fundamental (e ela tem-na) e a voz é bem colocada e poderosa mas eu sou particularmente sensível a desafinações. A música não é desengraçada, seguindo o estilo do seu compositor, mas também não é nada de radicalmente novo.