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sexta-feira, junho 10, 2022

Audiolivro - "O Mandarim" de Eça de Queiroz (Português Europeu - Portugal)

"O Mandarim" de Eça de Queiroz (Eça de Queirós, na grafia moderna) foi publicado originalmente em 1880 em folhetins e 1ª e 2ª edições em livro.

sexta-feira, julho 30, 2021

Audiolivro - "A Invenção do Dia Claro" de Almada Negreiros (Português ...

Desta vez, foi uma descoberta para mim. Confesso que nunca tinha lido nada de Almada Negreiros.

No entanto, "A Invenção do Dia Claro" não me era totalmente estranho. Depois de matutar, descobri que é um álbum homónimo dos Capitão Fausto.


Se tivesse de escolher um excerto da obra de Almada Negreiros, seria este:

+A FLOR+

—«Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute la journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens. Et après, si ce que j'ai fait n'est pas bon, je n'en suis plus responsable; c'est que je ne peux vraiement pas faire mieux.»

Henri Matisse.

Pede-se a uma creança. Desenhe uma flor! Da-se-lhe papel e lapis. A creança vae sentar-se no outro canto da sala onde não ha mais ninguem.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas n'uma direcção, outras n'outras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais faceis, outras mais custosas. A creança quiz tanta força em certas linhas que o papel quasi que não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o pezo do lapis já era demais.

Depois a creança vem mostrar essas linhas ás pessôas: Uma flôr!

As pessôas não acham parecidas estas linhas com as de uma flôr!

Comtudo, a palavra flôr andou por dentro da creança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, á procura das linhas com que se faz uma flôr, e a creança pôz no papel algumas d'essas linhas, ou todas. Talvez as tivesse pôsto fóra dos seus logares, mas, são aquellas as linhas com que Deus faz uma flôr!


quinta-feira, maio 13, 2021

Audiolivro - "O Suave Milagre!" de Eça de Queiroz (Português Europeu - ...

Num dia tão especial como é o 13 de maio, deixo-vos o último conto escrito por Eça de Queiroz, dois anos antes da sua morte: "O Suave Milagre!". Foi publicado originalmente em 1898 na "Revista Moderna".

quarta-feira, maio 05, 2021

Dia Mundial da Língua Portuguesa

Neste dia tão especial para todos os portugueses e para todos aqueles que, espalhados pelo mundo, falam português (com sotaque, com sal ou com açúcar), deixo-vos uma sugestão.

Ouçam os audiolivros com contos de Eça de Queiroz que publiquei no meu canal do YouTube: "O Tesouro", "O Defunto", "A Aia" e o "Mandarim".






Em breve colocarei as restantes partes do conto "O Mandarim".










sexta-feira, abril 24, 2015

Conto - O Farol (2)

As escadas em caracol terminavam num patamar em madeira mesmo por baixo da maquinaria que fazia girar a luz forte do farol. Entre esta e o patamar não havia muito espaço... talvez uns dois metros de pé direito. O suficiente para albergar um estrado em jeito de cama, uma mesa, uma cadeira e um baú. O acesso à maquinaria fazia-se por uma escada vertical em madeira. Lá fora, o vento começara a soprar com maior intensidade e arremessava as gotas de chuva cada vez mais pesadas contra os postigos, de forma claramente audível. Um calafrio percorreu a espinha de Estêvão. Pressentiu que algo não iria correr bem naquela noite. Pela primeira vez sentiu medo. Um medo difícil de definir. Um sentimento de clausura e de solidão embalado pelas ondas do mar.

quinta-feira, abril 23, 2015

Conto - O Farol (1)

Estava uma noite com o céu carregado. Nem a lua ou as estrelas conseguiam aparecer sob o manto espesso de nuvens que se abatia em redor do velho farol. O caminho para lá chegar era íngreme, pedregoso e o avançar da escuridão dificultava ainda mais a tarefa para quem não conhecesse de cor todas as armadilhas daquela rota sinuosa. Tal não era o caso de Estêvão. Agarrado ao seu cachimbo fumegante, precisava apenas do instinto e da memória para chegar à porta enferrujada que dava acesso à edificação. Vasculhou no bolso das calças e encontrou a chave pesada, comida pelo passar do tempo, de dentes bem largos e limados pelo uso sucessivo. A porta abriu-se e a sua mão escorregou pela parede à altura certa para ligar um pequeno interruptor que inundou com uma luz fria e pálida o patamar inferior do velho farol. Fechou a porta atrás de si. Olhou para cima, para as escadas em caracol que o levariam aos patamares superiores e sentiu o cheiro da humidade salgada misturada com ferrugem. Um pingo ou outro caiam dos degraus e, por vezes, estragavam na sua passagem uma ou outra teia de aranha. Agarrado ao corrimão de pintura esverdeada, pé ante pé, foi subindo, à medida que provocava o ranger da estrutura metálica. Os postigos dispostos ao longo das escadas estavam a ser pintalgados por minúsculas gotas de chuva, prenúncio de uma tempestade que se avizinhava.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 09

Pensavam os incautos leitores que este Guia Prático do Condutor Acéfalo não tinha uma palavra a dizer sobre os condutores de motociclos? Enganam-se! Hoje debruçar-me-ei sobre a única (?) particularidade que interessa sobre este tipo de condução acéfala. O uso do capacete.

São sobejamente conhecidos todos os aspectos negativos que advêm da utilização do funesto capacete. Indicarei apenas alguns:
  • O revestimento interior faz suar a cara em geral e as sobrancelhas em particular;
  • A correia de prender o capacete dilacera a barbela;
  • A viseira impede que o condutor desfrute do ar fresco em geral e dos insectos esparramados na cara em particular;
  • A audição do meio circundante assemelha-se ao que se teria se o condutor tivesse a cabeça enfiada num caixote de cartão;
  • Os efeitos benéficos da água destilada da chuva sobre o couro cabeludo não se fazem sentir;
  • etc.
De tudo isto depreende-se que a postura correta será a não utilização do capacete.

No entanto, é sobejamente conhecido o impacto de algumas marcas de capacetes na capacidade de engatar gajas e/ou gajos. Assim, sugerem-se alguns usos para o capacete, do mais importante para o menos importante:
  • Existem algumas motas com compartimentos apropriados para guardar capacetes, por isso, na altura da condução mantenha o capacete nesse compartimento e quando já não conduzir, coloque-o debaixo do braço e ostente-o com orgulho;
  • Se preferir utilizá-lo enquanto conduz, coloque-o no cotovelo (enfiando o braço pela viseira e tirando-o pela parte de baixo do capacete) porque, afinal, o cotovelo é uma articulação formada por um dos conjuntos de ossos mais importantes do corpo humano (pelo menos mais importante que a caixa craniana de um condutor acéfalo(*));
  • Se preferir utilizá-lo na cabeça enquanto conduz, não o enfie totalmente; ao invés, coloque-o apenas enfiado até à testa porque assim, e em caso de impacto, o capacete removerá o seu nariz que, como se sabe, é outra parte do corpo humano com utilidade obscura.
Seguindo estes conselhos, estará certo de que passará muitas e alegres tardes a apanhar do asfalto a sua própria massa encefálica(**).

(**) Por definição, um condutor acéfalo não terá cérebro, logo, a caixa craniana não terá utilidade específica comparativamente com a articulação do cotovelo.

(**) Por definição, um condutor acéfalo não terá cérebro, logo, muito provavelmente não terá muita massa encefálica para apanhar (se é que terá alguma). No entanto, isto não será um impedimento sério a que passe alegres tardes a apanhar do asfalto outro tipo de coisas que lhe saiam da cabeça. 

terça-feira, novembro 16, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 08

Não há coisa mais irritante do que os semáforos limitadores de velocidade. São irritantes porque, à partida, não deveria haver qualquer tipo de limite para a velocidade a que se circula, principalmente dentro das localidades.

Agora imagine este cenário. Você viaja pacatamente a 100 km/h dentro de uma localidade quando, sem que nada o possa prever, vê um otário à sua frente que circula à provecta velocidade de 50 km/h porque existe um sinal a avisar que os semáforos limitadores de velocidade que se encontram mais à frente estão ajustados para este grau de locomoção semelhante a uma lesma com obesidade mórbida.

O que deverá fazer?

A resposta é demasiado óbvia mas cá vai. Ultrapasse o otário e acelere o mais que puder de forma a garantir que o semáforo despolete e fique vermelho. Aí, com toda a pujança, ignore de alto a baixo a indicação do semáforo e passe por ele como se nada fosse enquanto se refastela com a visão do seu espelho retrovisor; o otário atrás de si parou no semáforo vermelho.

terça-feira, setembro 07, 2010

Meio-Silêncio

Não sou poeta. Escrevi esta prosa semi-poética em Novembro de 1997, numa altura em que estava emocionalmente sensível. Para ser poeta, penso que seria necessário ter episódios destes mais amiúde, o que pode ser bom mas também pode ser mau. Acabei por achar que o texto tinha a qualidade mínima suficiente para incluí-lo no meu blogue.

Estas linhas, escrevo-as ao acaso, enquanto espero por um final de tarde.

Lembro-me que são duas horas e eu aqui... num banco de jardim, alimentado pela brisa que passa e por algumas folhas amarelecidas que rodopiam à minha frente.

E é tão  bom parar! Eu que pensava ser este um lugar para os reformados, para aqueles que já não têm muito a esperar da vida, enganei-me. O barulho suave - se há algum barulho suave, é este - do chafariz que enfeita um dos cantos deste jardim, consegue ser um bom conselheiro.

Entretenho-me a ver as pessoas passar. Cada qual na sua vida, uma ou outra circunstância fez com que passassem por aqui neste momento em que estou receptivo ao que se passa à minha volta.

Estamos em meados de novembro. É natural que esteja um pouco frio. Eu, enquanto arrefeço, penso na minha vida.

Por acaso, numa daquelas atitudes irreflectidas, encostei a mão ao meu ouvido esquerdo. Fiquei assim, num estado de semi-surdez e os sons pareceram mais graves. Imaginei como seria a minha vida se não conseguisse ouvir. Naquele instante, tudo me pareceu poético: o movimento das pessoas, os risos das crianças, os automóveis que passavam, todos embebidos em meio-silêncio.

Estranho... ouço o bater do meu coração, o compasso da natureza. Ora acelerado, ora embalado em doces recordações. Tudo isto num banco de jardim, num qualquer princípio de tarde.

Nas minhas mãos tenho um guarda-chuva que, se calhar, não terei oportunidade de utilizar hoje. Ajuda também a guiar os meus passos e gosto de fazê-lo rodopiar, tendo por eixo a minha mão.

É altura de tomar caminho, numa terra que não é a minha, mas na qual me sinto em casa.

Guardo estas sensações porque sei que sonharei com elas mais tarde ou mais cedo.

Em breve partirei de comboio para a minha cidade, numa linha que já conheço bem. Não apreciarei a paisagem pois estará escuro, mas a viagem embalará o meu sono.

Alguns procuram um sentido para a vida. Na minha vida eu procuro lugares, pessoas, atmosferas, sons, amor. Coisas simples, coisas belas, que o Homem tanto estima porque lhe está na própria natureza. 

sexta-feira, setembro 03, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 07

Este é talvez o post mais importante desta colecção. Se tiver de escolher apenas uma regra deste guia prático, não vá mais longe! Aqui está ela! A verdadeira! A única! A arrebatadora regra para todos os condutores acéfalos!

Não há coisa mais inteligente para se fazer ao volante de um veículo. Na presença de um obstáculo ao longe, o condutor deve acelerar sempre até se encontrar a uma curta distância do mesmo. Depois deverá travar a fundo.

Imagine esta situação da vida real. Uma pessoa, fiel cumpridora das regras deste guia prático do condutor acéfalo, viaja pela faixa da esquerda da auto-estrada a uns simpáticos 100 km/h. Ao longe, você que também prima pela fidelização a este guia, circula também na faixa da esquerda a uns simpáticos 150 km/h. Ao avistá-lo, acelera mais um pouco... digamos... para 160 km/h. Ao faltarem umas escassas dezenas de metro para o ponto em que a traseira do carro da frente fica colada à dianteira do seu veículo, deverá travar a fundo para que progrida a uma velocidade igual ou inferior à do carro que vai à sua frente, de maneira a evitar a colisão.

Qual a razão para este inteligente comportamento? É óbvio! Provocar medo no condutor que vai à frente e fazer com que ele infrinja as regras deste guia, deslocando-se para uma faixa mais à direita e permitir que você, que vai atrás, possa progredir a viagem de acordo com as regras da boa condução acéfala. Porque, bem vistas as coisas, para si, mais vale serem os outros a desviarem-se das regras deste guia prático!

segunda-feira, agosto 23, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 06

A faixa direita da estrada é para quem anda devagar e quem tem carros baratos de baixa cilindrada. A faixa esquerda da estrada é para quem anda depressa e quem tem carros caros de alta cilindrada.

E isto é sempre verdade, quer hajam mais carros na estrada ou não. Por exemplo: alguém que tenha um carro caro e/ou de alta cilindrada, ao entrar numa auto-estrada, deve colocar-se na faixa da esquerda e não a largar mais até sair da auto-estrada.

Estes conselhos também são válidos para quem acha que a sua chocolateira (também conhecida por machimbombo, calhambeque, Dona-Elvira, lata-velha, etc.) tem alma de carro caro e/ou de alta cilindrada ou que simplesmente gosta de colar o acelerador ao tapete de borracha sempre que anda nela.

Outra variante interessante desta regra aplica-se a todos os que têm aversão ao lado direito da estrada. Nestes casos, independentemente da velocidade e do tipo de via em que se circula, deverá preferir SEMPRE o lado esquerdo da faixa de rodagem.

sexta-feira, julho 16, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 05

Se existir uma estrada estreita em que você passa todos os dias e na qual, por norma, não se cruza com veículos nenhuns (mais conhecidas por estradas do "lá vem um"), poderá assumir sem sombra de dúvidas que essa situação irá manter-se todas as vezes em que circular pela referida estrada. Assim, aconselha-se a que ande acima dos limites de velocidade permitidos e que corte o maior número de curvas que puder (poupando tempo e os pneus do carro), principalmente se as curvas forem fechadas e com pouca visibilidade.

terça-feira, julho 13, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 04

Os fabricantes de automóveis exploram os seus clientes ao cobrarem-lhes dinheiro por colocarem dispositivos inúteis nos seus veículos. Um destes dispositivos são as luzes cor-de-laranja que se encontram a toda a volta do automóvel. Estas luzes são a coisa mais despropositada que existe. Gastam a bateria do automóvel, irritam o condutor com o barulhinho que fazem (tic... tic... tic...) e só servem para revelar as nossas intenções aos outros condutores. Como em tudo na vida, o segredo é a alma do negócio. Se alguma vez utilizar o pisca, faça-o, quando muito, depois de efectuar a manobra e nunca antes.

segunda-feira, julho 05, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 03

Quando acabar de estacionar o seu veículo, ao sair do mesmo, abra totalmente a porta. Quanto mais esta impecilhar a faixa de rodagem, melhor. Se algum veículo estiver a passar na altura por si, abra total e rapidamente a porta. Nada melhor que um bom susto para os condutores que passam estarem com os cinco sentidos sempre alerta. As portas têm posições intermédias de abertura estável mas esta funcionalidade não tem qualquer utilidade prática.

terça-feira, junho 22, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 02

Se vir um lugar de estacionamento vazio no meio de outros que estejam preenchidos, não estacione lá. Estacione antes na faixa de rodagem, em frente a esse lugar de estacionamento. Pense nas vantagens. Não precisa de fazer manobras complicadas para estacionar o seu veículo e, se a polícia aparecer, aí sim poderá fazer o sacrifício de colocar o seu veículo no lugar de estacionamento vazio. Por outro lado, transmite a seguinte ideia aos outros condutores: "Eu cheguei primeiro, tenho lugar para estacionar e só não estaciono porque não quero. Se quiseres estacionar, procura um lugar para ti".

(continua...)

sexta-feira, junho 18, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 01

Introdução

É com estas linhas que inicio uma brilhante publicação humorística on-line, baseada em factos (infelizmente) reais.

Será um compêndio de calinadas de condutores automobilísticos acéfalos. Para os condutores acéfalos que vão ler estes posts (e eu sei que são muitos), convém explicar o significado da palavra "acéfalo". Etimologicamente, trata-se de uma palavra derivada por prefixação, em que o prefixo "a" designa "desprovido de", "sem" ou "com falta de" e céfalo deriva do grego κεφάλι (lê-se kefáli), exprimindo a noção de cabeça. Não quero com isto dizer que certos e determinados condutores são desprovidos de cabeça! Longe de mim! Tomo o todo pela parte (recorrendo-me da figura de estilo denominada por sinédoque) e quero apenas dizer que existem condutores que não têm cérebro ou, se o têm, não o utilizam quando conduzem.

Para apimentar mais as coisas, criei um pseudónimo: João Cara-de-Pau.

Por fim, uma palavra aos bons condutores, que também os há. Não tentem fazer isto com os vossos veículos. Leiam este guia prático e façam exactamente o contrário.

Obrigado.

O Guia Prático Propriamente Dito

Se houver um obstáculo na sua faixa de rodagem, faça tudo para chegar primeiro junto do mesmo (inclusive ultrapassar os limites de velocidade permitidos) e ultrapasse-o antes que passe qualquer condutor da outra faixa de rodagem.

(continua...)

quarta-feira, março 14, 2007

Cuca, O Saltimbanco Destemido - Capítulo II

Feitas que estão as apresentações, a estória pode começar.

Estava uma calma tarde de primavera. O sol punha-se pachorrentamente no horizonte, com uma cor que fazia lembrar a cara de alguém que estivesse bastante envergonhado. Cuca brincava com o Monstro, atirando-lhe pedacitos de pão, que o bicho apanhava velozmente, ainda no ar, dando-lhes dentadas. Lurdinhas, com o cabelo apanhado e um avental que apertava as suas formas roliças, dava de comer ao par de cavalos que puxavam a roulotte. À falta de melhor, Cuca tinha-os baptizado de Piolho e Lêndea. Perdoe-me o leitor que a apresentação destas últimas personagens de relevo pertencentes aos domínios do Cuca não tivesse sido feita no capítulo anterior.

- Luuurdes... tás a dar de comer ao Piolho e à Lêndea? - perguntou Cuca.

- Atão não vês que é o que estou a fazer? Se deixasses de brincar com o Monstro e fosses fazer algo de mais útil, fazias melhor! - respondeu Lurdinhas.

- E estou a fazer algo de útil! Estou a dar de comer ao bicho!

- Às prestações... deixa aí a carcaça toda que ele come na mesma! E tu ficas com tempo, por exemplo, para arrumares a bagunçada que está dentro da roulotte!

- O coitado pode-se entalar... é certo que tem uma boca de piranha... mas se lhe dou a carcaça toda ainda se entala com ela! Mais vale partí-la e dar-lha assim... Sempre vai treinando as mordidelas... se aparecer por aqui algum gatuno...

- Olha... o maior gatuno ainda és tu...

- Levas-me uma lamparina nessas beiças...

- Prontos... tinha de acabar em discussão!

E acabava quase sempre em discussão. Viviam possivelmente há demasiado tempo juntos. Três anos a olharem para o focinho um do outro, sem interrupções, levava-os a confrontos fáceis. Discutiam, amuavam, ia cada um para o seu canto e depois, devagarinho, começavam a falar um com o outro. Primeiro, com frases curtas. Depois, com discursos melosos. Mais tarde, com beijos e abraços que se prolongavam pela noite dentro.

Depois da discussão ter de facto acontecido, o diálogo continuou já na fase das frases curtas:

- Amanhã de manhã partimos daqui?

- Sim.

- P'ra onde?

- Em direcção ao Castelo... sabes bem!

- Queres ir ao Castelo?

- Quero.

- Fazer o quê?

- Mostrar-te uma coisa que não vais acreditar...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Cuca, O Saltimbanco Destemido - Capítulo I

"Saltimbanco - do It. saltimbanco, salta em banco, s. m., pelotiqueiro; histrião; ginasta ou acrobata que se exibe nas feiras, festas, etc. ; charlatão de feira ou de circo."

É difícil contextualizar esta estória no espaço e no tempo. Só se pode dizer que foi há muito tempo atrás, em local incerto. Não existia nesse tempo nenhuma das modernices a que nós estamos acostumados hoje em dia. O automóvel, por exemplo, era uma curiosidade apenas acessível aos mais afortunados habitantes das grandes urbes. Mas também não é numa urbe que a nossa estória se conta. Imagine o leitor o cenário mais idílico que conseguir e terá quase conseguido apreender o espaço que servirá de pano de fundo a este negro romance.

Teotónio Marialva. Dito assim, provavelmente não lhe dirá nada. Se for dito de outra forma, provavelmente continuará a não lhe dizer nada... pelo menos por agora. Teotónio Marialva era conhecido entre o seu rol de amigos mais chegados como Cuca.

Cuca vivia numa roulotte, ao estilo dos ciganos, puxada por cavalos. Lá dentro, tinha apenas o indispensável para lhe proporcionar um mínimo de conforto nas longas jornadas que fazia: uma cama, partilhada com a sua companheira de aventuras, Lurdinhas dos Prazeres. Também por lá andavam uma mesa e duas cadeiras, que dançavam por todo o lado durante as viagens, partindo, por vezes, os poucos pertences do casal. A um canto, um armário com portas que fechavam, guardava os copos, pratos e garfos do parco enxoval. Num outro canto, um baú. Era o baú do Cuca. E aí ninguém mexia! Só ele! Lá dentro, estavam os ingredientes indispensáveis para a confecção do seu Elixir da Boa Saúde, que vendia pelas feiras e mercados. Da parte de fora da casa ambulante, preso por uma trela relativamente longa, deambulava o Monstro... um pequeno caniche de olhar ameaçador e dentes afiados, que se atirava a todos que se tentassem aproximar da roulotte. Por vezes, Cuca esquecia-se de o desprender da roulotte quando iniciava mais uma das suas viagens, arrastando o pobre do bicho durante algumas centenas de metros, antes de se aperceber do erro que havia cometido.

Audiolivro - Poemas de Luiz Vaz de Camões (Português Europeu - Portugal)

Seleção pessoal de 22 poemas de Luiz Vaz de Camões (Luís Vaz de Camões na grafia moderna). Luiz Vaz de Camões (1524-1580) é o grande poeta d...