quarta-feira, novembro 24, 2010

De Greve (uma espécie de...)

Hoje foi o dia em que estive mais próximo de fazer uma greve. Só não o fiz porque não vejo que haja espaço para qualquer consequência positiva que possa advir desta greve. O país está em maus lençóis e as medidas que estão a ser tomadas podem até não ser as suficientes (com certeza não serão) para conseguir encarreirar novamente as coisas. Se fizesse greve seria pelas razões que vou enumerar e não pelas razões que apontam para se fazer greve. Assim sendo, esta é a forma encontrada de fazer greve: expressar a minha opinião sobre o estado da nação.
  • O governo parece ignorar a regra básica de qualquer administrador que se preze e que consiste em não se gastar mais do que o que se ganha;
  • O governo só agora começou a implementar políticas contra o despesismo em todos os sectores do estado;
  • O governo teima em não apoiar sectores de actividade que poderão gerar riqueza interna e diminuir a nossa dependência do estrangeiro;
  • O governo continua a apoiar o laxismo das pessoas ao fazer com que continuem a optar pelo rendimento mínimo em detrimento de um trabalho;
  • O governo não consegue livrar-se dos jobs for the boys mesmo que isso implique colocar pessoas incompetentes em cargos que não são mais que uma segunda escolha para candidatos autárquicos falhados, entre outros;
  • O governo e o povo português continuam a viver acima das suas possibilidades;
  • O povo português valoriza o chico-espertismo;
  • O povo português tenta sempre contornar a lei e o estado para tirar um benefício próprio;
  • etc.
Duas ressalvas  para esta  pequena lista. O termo "governo" aplica-se a este governo e em maior ou menor grau a todos os governos pós 25 de Abril (realidades anteriores são-me menos familiares). O termo "povo português" é talvez demasiado abrangente mas, infelizmente, são cada vez mais aqueles que se encaixam nesta amálgama.

Parece que já adivinho a discussão estéril entre o governo e os sindicatos sobre a percentagem de grevistas em cada sector de actividade, que segue as fórmulas empíricas:

Governo: ( 0 + x ) % de grevistas
Sindicatos: ( 100 - x ) % de grevistas

Com x < 30 % e a tender para zero.

Como conclusão, o governo até poderá dizer que "a fraca adesão à greve é um sinal claro de que os portugueses percebem a grave crise em que o país se encontra (originada pela conjuntura mundial) e que estas são as políticas correctas para se ultrapassar a situação". Só que não percebe, ou finge não perceber, que a revolta está no facto de que tudo isto poderia e deveria ter sido evitado.



Olho Vivo e Zé d'Olhão
Herman José e Joel Branco

Esta vida é um fadinho
Que põe um homem de molho.

- Eu finjo que sou ceginho!
- Eu tenho um g'anda olho...
 
  Olho Vivo!

- Zé d'Olhão!

Até manda ventarolas!
Isto é que é uma união:

- Se um diz mata!
- Outro diz esfola!

  Isto é que vai uma vida
  Cá neste meu Portugal!
  Uns a dizer que 'tá bem
  E eu me'mo a ver que 'tá mal!

- Eu não sou de mandar vir
  Mandar a bronca não escolho!
  Mas há coisas a pedir
  Um granda soco no olho!

- Ó terra do chico-esperto
  Ó terra do Zé Foguetes
  Que está sempre de olho aberto
  Mas enfia os seus barretes!

- Há muitos oportunistas
  A ver s'a coisa s'ajeita
  Por um olho olham para a esquerda
  Pelo outro olham p'á direita!

  Olho vivo!

- Zé d'Olhão!

Até manda ventarolas!
Isto é que é uma união:

- Se um diz mata!
- Outro diz esfola!

  As crises neste país
  São semp'a me'ma receita!
  Ora são fúrias da esquerda
  Ora ataques da direita!

- Um homem não é de ferro
  E as crises não são de bronze!
  O país é com'ós bêbados
  Está entre as dez e as onze!

- A época espacial
  Finalmente 'tá a surgir
  Nas terras de Portugal
  Onde 'tá tudo a subir!

- Olha p'ó custo de vida
  Sei eu e sabes tu!
  'té parece um foguetão
  Que leva fogo no cu!

  Olho vivo!

- Zé d'Olhão!

Até manda ventarolas!
Isto é que é uma união:

- Se um diz mata!
- Outro diz esfola!

  C'os cintos de segurança
  Nos carros nada sacode!
  É mais um cinto à'pertar
  A barriga do pagode!

- Os cravos da revolução
  'tamos a pagar com juro!
  Pois o cinto português
  Já vai no último furo!

- Ó terra de boa gente,
  Ó terra dos meus amores
  Tudo quer independência
  'té a Madeira e os Açores!

- Se a coisa assim continua
  'tá-se a ver que qualquer dia
  'té damos a independência
  Ao Barreiro e a Leiria!

Esta vida é um fadinho
Que põe um homem de molho.

- Eu finjo que sou ceginho!
- Eu tenho um g'anda olho...
 
  Olho Vivo!

- Zé d'Olhão!

Até manda ventarolas!
Isto é que é uma união:

- Se um diz mata!
- Outro diz esfola!

terça-feira, novembro 16, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 08

Não há coisa mais irritante do que os semáforos limitadores de velocidade. São irritantes porque, à partida, não deveria haver qualquer tipo de limite para a velocidade a que se circula, principalmente dentro das localidades.

Agora imagine este cenário. Você viaja pacatamente a 100 km/h dentro de uma localidade quando, sem que nada o possa prever, vê um otário à sua frente que circula à provecta velocidade de 50 km/h porque existe um sinal a avisar que os semáforos limitadores de velocidade que se encontram mais à frente estão ajustados para este grau de locomoção semelhante a uma lesma com obesidade mórbida.

O que deverá fazer?

A resposta é demasiado óbvia mas cá vai. Ultrapasse o otário e acelere o mais que puder de forma a garantir que o semáforo despolete e fique vermelho. Aí, com toda a pujança, ignore de alto a baixo a indicação do semáforo e passe por ele como se nada fosse enquanto se refastela com a visão do seu espelho retrovisor; o otário atrás de si parou no semáforo vermelho.

segunda-feira, novembro 15, 2010

WCAG 2.0

Web Content Accessibility Guidelines ou, em bom português, Directrizes de Acessibilidade para o Conteúdo da Web. Na sua versão 2.0, constitui uma recomendação do W3C (World Wide Web Consortium) desde 11 de Dezembro de 2008.

Qualquer conteúdo disponibilizado na Web deverá ser:

1. Perceptível - a informação e os componentes da interface de utilizador têm de ser apresentados aos utilizadores em formas que eles possam percepcionar.
  • 1.1 - Fornecer alternativas em texto para qualquer conteúdo não textual permitindo, assim, que o mesmo possa ser alterado noutras formas mais adequadas à necessidade da pessoa, tais como impressão em caracteres ampliados, braille, fala, símbolos ou linguagem mais simples.
  • 1.2 - Fornecer alternativas para multimédia baseada no tempo.
  • 1.3 - Criar conteúdos que possam ser apresentados de diferentes maneiras (por exemplo, uma disposição mais simples) sem perder informação ou estrutura.
  • 1.4 - Facilitar a audição e a visualização de conteúdos aos utilizadores, incluindo a separação do primeiro plano e do plano de fundo.
2. Operável - os componentes da interface de utilizador e a navegação têm de ser operáveis.
  • 2.1 - Fazer com que toda a funcionalidade fique disponível a partir do teclado.
  • 2.2 - Fornecer tempo suficiente aos utilizadores para lerem e utilizarem o conteúdo.
  • 2.3 - Não criar conteúdo de uma forma conhecida por causar ataques epilépticos.
  • 2.4 - Fornecer formas de ajudar os utilizadores a navegar, localizar conteúdos e determinar o local em que se encontram.
3. Compreensível - a informação e a operação da interface de utilizador têm de ser compreensíveis.
  • 3.1 - Tornar o conteúdo de texto legível e compreensível.
  • 3.2 - Fazer com que as páginas Web surjam e funcionem de forma previsível.
  • 3.3 - Ajudar os utilizadores a evitar e corrigir erros.
4. Robusto - o conteúdo tem de ser robusto o suficiente para poder ser interpretado de forma fiável por diversos agentes de utilizador, incluindo tecnologias de apoio.
  • 4.1 - Maximizar a compatibilidade com actuais e futuros agentes de utilizador, incluindo tecnologias de apoio.
Mais informações em Directrizes de Acessibilidade para o Conteúdo da Web (WCAG) 2.0.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Cantar em Sobre Tom

A tradução é literal. O termo inglês é Overtone Singing. Este "fenómeno" musical baseia-se no facto do cantor conseguir produzir, com a sua garganta, dois tons em simultâneo, um mais grave e outro mais agudo. Consta-se que a sua origem remonta à Mongólia. Quem canta é Christian Bollmann.

terça-feira, setembro 07, 2010

Meio-Silêncio

Não sou poeta. Escrevi esta prosa semi-poética em Novembro de 1997, numa altura em que estava emocionalmente sensível. Para ser poeta, penso que seria necessário ter episódios destes mais amiúde, o que pode ser bom mas também pode ser mau. Acabei por achar que o texto tinha a qualidade mínima suficiente para incluí-lo no meu blogue.

Estas linhas, escrevo-as ao acaso, enquanto espero por um final de tarde.

Lembro-me que são duas horas e eu aqui... num banco de jardim, alimentado pela brisa que passa e por algumas folhas amarelecidas que rodopiam à minha frente.

E é tão  bom parar! Eu que pensava ser este um lugar para os reformados, para aqueles que já não têm muito a esperar da vida, enganei-me. O barulho suave - se há algum barulho suave, é este - do chafariz que enfeita um dos cantos deste jardim, consegue ser um bom conselheiro.

Entretenho-me a ver as pessoas passar. Cada qual na sua vida, uma ou outra circunstância fez com que passassem por aqui neste momento em que estou receptivo ao que se passa à minha volta.

Estamos em meados de novembro. É natural que esteja um pouco frio. Eu, enquanto arrefeço, penso na minha vida.

Por acaso, numa daquelas atitudes irreflectidas, encostei a mão ao meu ouvido esquerdo. Fiquei assim, num estado de semi-surdez e os sons pareceram mais graves. Imaginei como seria a minha vida se não conseguisse ouvir. Naquele instante, tudo me pareceu poético: o movimento das pessoas, os risos das crianças, os automóveis que passavam, todos embebidos em meio-silêncio.

Estranho... ouço o bater do meu coração, o compasso da natureza. Ora acelerado, ora embalado em doces recordações. Tudo isto num banco de jardim, num qualquer princípio de tarde.

Nas minhas mãos tenho um guarda-chuva que, se calhar, não terei oportunidade de utilizar hoje. Ajuda também a guiar os meus passos e gosto de fazê-lo rodopiar, tendo por eixo a minha mão.

É altura de tomar caminho, numa terra que não é a minha, mas na qual me sinto em casa.

Guardo estas sensações porque sei que sonharei com elas mais tarde ou mais cedo.

Em breve partirei de comboio para a minha cidade, numa linha que já conheço bem. Não apreciarei a paisagem pois estará escuro, mas a viagem embalará o meu sono.

Alguns procuram um sentido para a vida. Na minha vida eu procuro lugares, pessoas, atmosferas, sons, amor. Coisas simples, coisas belas, que o Homem tanto estima porque lhe está na própria natureza. 

sexta-feira, setembro 03, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 07

Este é talvez o post mais importante desta colecção. Se tiver de escolher apenas uma regra deste guia prático, não vá mais longe! Aqui está ela! A verdadeira! A única! A arrebatadora regra para todos os condutores acéfalos!

Não há coisa mais inteligente para se fazer ao volante de um veículo. Na presença de um obstáculo ao longe, o condutor deve acelerar sempre até se encontrar a uma curta distância do mesmo. Depois deverá travar a fundo.

Imagine esta situação da vida real. Uma pessoa, fiel cumpridora das regras deste guia prático do condutor acéfalo, viaja pela faixa da esquerda da auto-estrada a uns simpáticos 100 km/h. Ao longe, você que também prima pela fidelização a este guia, circula também na faixa da esquerda a uns simpáticos 150 km/h. Ao avistá-lo, acelera mais um pouco... digamos... para 160 km/h. Ao faltarem umas escassas dezenas de metro para o ponto em que a traseira do carro da frente fica colada à dianteira do seu veículo, deverá travar a fundo para que progrida a uma velocidade igual ou inferior à do carro que vai à sua frente, de maneira a evitar a colisão.

Qual a razão para este inteligente comportamento? É óbvio! Provocar medo no condutor que vai à frente e fazer com que ele infrinja as regras deste guia, deslocando-se para uma faixa mais à direita e permitir que você, que vai atrás, possa progredir a viagem de acordo com as regras da boa condução acéfala. Porque, bem vistas as coisas, para si, mais vale serem os outros a desviarem-se das regras deste guia prático!

quarta-feira, setembro 01, 2010

Freixo de Espada à Cinta

Qual a terra que fervilhou mais no meu imaginário desde miúdo? Sem dúvida que foi Freixo de Espada à Cinta. As razões? Quando queria dizer que algo ficava muito longe, num local remoto, vinha-me logo à ideia frases como "Isso fica mais longe que Freixo de Espada à Cinta"! Depois, o próprio nome da localidade é bastante enigmático.

Foi, portanto, com alguma comoção que me vi a visitar esta pacata localidade.

A origem da Vila de Freixo de Espada à Cinta perde-se nas brumas dos tempos, estando a sua fundação e toponímia encobertas pela neblina que sempre envolvem as lendas. Todavia, vários historiadores afirmam que os Narbassos, povo ibérico pré-romano mencionado por Ptolomeu, habitavam toda esta zona da Península, pressupondo-se assim a existência desta povoação anterior à fundação do Reino de Portugal.

A 27 de Março de 1248 D. Afonso III confirmou o foral outorgado pelo nosso primeiro monarca e todos os privilégios da vila, concedendo-lhe ele próprio um novo diploma foralengo em 20 de Janeiro de 1273.

Freixo é uma vila cheia de História podendo ser usufruída pelo visitante com enorme satisfação, que ao percorrer as suas ruas cheias de portadas e janelas manuelinas, as antigas muralhas e torre ainda medievais, ao visitar a Igreja, ao passear pela Encruzilhada, pela Rua das Flores, pelo Vale, pelo Castanheiro ou pelo Outeiro, desfrutará com certeza de um prazer sem comparação.

A igreja matriz é bastante grande, rectangular, com abside quadrangular e dois absidíolos, um de cada lado, gigantes góticos em três andares e contrafortes nos ângulos da fachada que deixam entrever os cinco tramos em que se divide a nave. As frestas entre os contrafortes rematam em arco redondo, tendo as gárgulas a forma de canhão e os remates em pináculos quadrangulares tão característicos dos meados do séc. XVI.


A Torre do Galo é um monumento nacional. Em granito, facetada e heptagonal é hoje em dia um único e impressionante testemunho do extinto castelo medieval. Segundo Frei Viterbo esta torre foi mandada fazer por D. Fernando I cerca de 1376, uma vez que por ordem expressa deste monarca, nas terras onde não havia paços régios (caso de Freixo), para instalação dos reis quando as visitassem, foram mandados construir os "apartamentos de alcácere" que aqui foram esta torre e o seu belo salão ogival e que durante séculos serviram de residência ao alcaide ou ao governador do castelo.


Também visitámos o museu instalado na Casa da Cadeia, que é quinhentista e serviu como prisão Municipal. Foi feita a sua total recuperação para nela se situar um pólo museológico dividido por 4 salas: "Breve história geológica", "A cultura dos berrões" (denominados por “berrões” ou “verracos”, são representações escultóricas, normalmente em granito, de porcos, javalis, touros, carneiros e talvez ursos), "Dos forais ao município" e "A evolução do mundo agrário".

Perto da Torre do Galo, a minha esposa chamou-me a atenção para o verdadeiro freixo de espada à cinta.


Embora os principais monumentos estejam bem conservados, a localidade propriamente dita está um tanto ou quanto degradada, existindo bastantes casas devolutas.

segunda-feira, agosto 30, 2010

W3C - Conselhos para Fazer Sítios Web Acessíveis

Em 2005 fui a uma conferência da W3C, organizada no Hotel Sana Metropolitan em Lisboa, intitulada "W3C/WAI Web Accessibility Best Practices Evaluation Training". No meio da documentação disponibilizada, vinha um cartão do tamanho dos cartões de crédito com o título deste post. Como ainda se mantém actual, transcrevo-o na íntegra.

  • Imagens e animações. Utilize o atributo alt para descrever a função de cada elemento visual.
  • Mapas de imagem. Utilize mapas de cliente (anotação map), empregando texto nos pontos activos.
  • Multimédia. Disponibilize legendas e transcrições da componente sonora e descrições da componente visual.
  • Ligações de hipertexto. Utilize texto que faça sentido, mesmo lido fora do contexto. Por exemplo: evite "clique aqui".
  • Organização das páginas. Utilize cabeçalhos, listas e uma estrutura consistente. Sempre que possível, utilize CSS para efeitos de disposição e estilo.
  • Gráficos e esquemas. Forneça resumos ou utilize o atributo longdesc.
  • Scripts, applets e suplementos. Forneça conteúdo alternativo, se as características activas não forem acessíveis ou se não forem suportadas pelo navegador.
  • Frames. Utilize a anotação noframes e empregue títulos com significado.
  • Tabelas. Faça com que a leitura linha-a-linha seja compreensível. Forneça resumos.
  • Verifique o trabalho. Efectue validações. Recorra a ferramentas e às directivas existentes em http://www.w3.org/TR/WCAG/.

© W3C (MIT, INRIA, Keio) PT 2001/08

P. S. - W3C significa World Wide Web Consortium; WAI significa Web Accessibility Initiative. CSS significa Cascanding Style Sheets. Para saber mais, consulte: http://www.w3.org/WAI/.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Miranda do Douro

No segundo dia de férias, partimos à descoberta de Miranda do Douro.

Pelo caminho, parámos na Fraga do Puio, perto da localidade de Picote, onde se pode observar a magnífica paisagem sobre o Douro, que se serpenteia por estas paragens. A fotografia não faz juz ao local.


É também neste sítio que se pode encontrar uma gravura rupestre intitulada "Arqueiro da Fraga do Puio". Trata-se de um pequeno painel de forma subquadrangular que integra uma representação semi-esquemática de um arqueiro em posição de lançamento.

A “Cidade Museu” de Trás-os-Montes encontra-se a 86 km da capital do distrito e mantém a sua traça medieval e renascentista. O clima do concelho é de tal forma áspero, que é comum dizer-se que “Em Miranda há nove meses de Inverno e três de Inferno”. Os de Inferno são de Verão quentes e secos e os de Inverno são rigorosos, com frequentes nevadas. O concelho de Miranda tem 484 Km2 e quase 9000 habitantes divididos por 17 freguesias.

A Sé Catedral de Miranda do Douro é uma edificação maneirista, cuja traça se deve ao arquitecto Miguel de Arruda, embora as obras se tenham iniciado sob a orientação do arquitecto bragançano Pero de la Faia. A primeira pedra terá sido lançada em 1552, mas a conclusão da obra verificou-se já no período filipino.


Dentro desta Sé, encontrará o famoso "Menino Jesus da Cartolinha".

Em Miranda do Douro também visitámos o "Museu da Terra de Miranda" que nos dá um panorama sobre aspectos da vida quotidiana dos mirandeses, quer em casa, quer no trabalho. O paço episcopal, embora em ruínas, ainda merece ser visitado. O castelo de Miranda e o seu poço, não exigem uma visita demorada, uma vez que só resta um grande terreiro e umas paredes em ruínas.

O Clima desta região é áspero, onde se tocam os extremos do frio e do calor. Por isso, a gente desta terra teve a necessidade de criar a sua maneira de vestir para se defender no trabalho do campo. Criaram trajes de certa maneira austeros, simples, belos, artesanais e domésticos, feitos à base dos recursos locais como o linho e a lã.


Aproveitámos Miranda para fazer um passeio de barco pelo Douro, num agradável percurso de uma hora (ida e volta). As margens escarpadas adquirem mais majestosidade quando são vistas do rio. A dada altura, perde-se por completo o contacto com a civilização e tudo o que nos rodeia é tão somente a natureza. As pedras parecem precipitar-se no rio, avistam-se alguns ninhos abandonados nos pináculos rochosos e as aves de rapina giram no céu. À vinda, junto a uma rocha com forma de nariz, avistámos a Sé Catedral, naquele que seria o último retrato deste passeio memorável pelo Douro.

quarta-feira, agosto 25, 2010

Mogadouro

Nestas férias de verão, eu e a minha esposa decidimos ir para Trás-os-Montes, mais concretamente para a zona do Douro internacional onde partiríamos à descoberta de terras como Mogadouro, Miranda do Douro, Torre de Moncorvo, Freixo-de-Espada-à-Cinta, Zamora e Salamanca (estas últimas duas são em Espanha, como o leitor provavelmente saberá).

De todas as terras acima mencionadas, decidimos utilizar Mogadouro como charneira durante a visita às restantes cidades, pernoitando na Casa das Águas Férreas, que recomendamos vivamente.

No Nordeste do território nacional, integrado no distrito de Bragança, o concelho de Mogadouro faz fronteira com Espanha ao longo do rio Douro. Encaixado entre o vale profundo do Douro e a bacia do Sabor, ocupa o prolongamento do Planalto Mirandês que, por sua vez, dá seguimento ao Planalto Leonês (região de Zamora e Salamanca).

Erguido no século XII, o castelo de Mogadouro foi concedido em 1297 pelo rei D. Dinis à Ordem dos Templários e, alguns anos mais tarde, em 1319, passou para a Ordem de Cristo, sucessora daquela. Hoje conservam-se apenas dois panos de muralha, ligando um deles a torre a um cubelo. A torre, quadrangular e de aparelho "incertum", é acompanhada, não de muito longe, por uma outra de feição mais recente, conhecida como Torre do Relógio. Esta é feita de cantaria nos cantos e aparelho "incertum" a meio. Está dividida em três registos, o último dos quais preparado para receber sinos. Tem um remate piramidal e ostenta nos quatro cantos pináculos de granito. Apresenta-se hoje com graves fendas.


A Igreja da Misericórdia situa-se no centro histórico da Vila de Mogadouro, numa posição subjacente ao Castelo de Mogadouro, no Largo da Misericórdia, onde podemos encontrar o pelourinho de Mogadouro.

A construção da Igreja da Misericórdia remonta à 2ª metade do século XVI, após o ano de 1559, data marcada pela fundação da Santa Casa da Misericórdia de Mogadouro. A sua fundação ficou a dever-se à acção do benemérito D. Luís Álvares de Távora. Este obteve resposta positiva do Papa Pio IV, que concedeu a bula (documento papal) de erecção e várias indulgências (privilégios).


O pelourinho de Mogadouro é um marco jurisdicional quinhentista, de base quadrangular, muito rústica, assente sobre um soco também quadrangular de três degraus. O fuste é oitavado e formado por quatro blocos desiguais. A meio tem sinais de ter possuído uma argola. O capitel é constituído por um disco achatado de onde irradia uma cruz grega. O remate é piramidal de formato cónico.


Mogadouro intitula-se Terra d'Os Meus Amores, fazendo alusão à obra literária de Trindade Coelho.

José Francisco Trindade Coelho (Mogadouro, 18 de Junho de 1861 — Lisboa, 18 de Agosto de 1908) foi um escritor, magistrado e político português.

A sua obra reflecte a infância passada em Trás-os-Montes, num ambiente tradicionalista que ele fielmente retrata, embora sem intuitos moralizantes. O seu estilo natural, a simplicidade e candura de alguns dos seus personagens, fazem de Trindade Coelho um dos mestres do conto rústico português. Fiel a um ideário republicano, dedicou-se a uma intensa actividade pedagógica, na senda de João de Deus, tentando elucidar o cidadão português para a democracia.

Ir a Mogadouro e não provar a posta Mirandesa, é um sacrilégio. Escolhemos o restaurante "A Lareira" para provar esta iguaria. A entrada faz-se pelo café e fomos atendidos pelo Chefe de Cozinha que nos acompanhou até à mesa e nos sugeriu a famosa posta que ele próprio tratou de grelhar na lareira que domina a zona do restaurante. Estava simplesmente divinal.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 06

A faixa direita da estrada é para quem anda devagar e quem tem carros baratos de baixa cilindrada. A faixa esquerda da estrada é para quem anda depressa e quem tem carros caros de alta cilindrada.

E isto é sempre verdade, quer hajam mais carros na estrada ou não. Por exemplo: alguém que tenha um carro caro e/ou de alta cilindrada, ao entrar numa auto-estrada, deve colocar-se na faixa da esquerda e não a largar mais até sair da auto-estrada.

Estes conselhos também são válidos para quem acha que a sua chocolateira (também conhecida por machimbombo, calhambeque, Dona-Elvira, lata-velha, etc.) tem alma de carro caro e/ou de alta cilindrada ou que simplesmente gosta de colar o acelerador ao tapete de borracha sempre que anda nela.

Outra variante interessante desta regra aplica-se a todos os que têm aversão ao lado direito da estrada. Nestes casos, independentemente da velocidade e do tipo de via em que se circula, deverá preferir SEMPRE o lado esquerdo da faixa de rodagem.

quarta-feira, agosto 18, 2010

Cola Cisne

Anteontem fui à FNAC e não resisti. Comprei um tubo de cola Cisne.


Curiosamente, à volta estavam um conjunto de 50 cromos e uma pré-venda para o livro "Caderneta de Cromos" (a enciclopédia definitiva sobre o que nos deliciava nos anos 70 e 80) de Nuno Markl, a sair no próximo dia 24 de Setembro de 2010.

terça-feira, agosto 17, 2010

Mariza

Vamos começar por descrever as minhas férias do fim para o princípio (já não é necessário explicar porque é que não actualizo o meu blog há 15 dias).

Neste primeiro post, dou conta da última actividade oficial das minhas férias: assistir ao espectáculo de Mariza e Tito Paris em Ponte de Lima.


Chegámos ao recinto da Expolima cerca de uma hora antes do início do espectáculo, o que nos permitiu obter um lugar perto do palco. O evento era ao ar livre e as cadeiras, embora de plástico, eram confortáveis. O palco estava decorado com tiras de pano colocadas segundo a vertical. O jogo de luzes encarregava-se de transformar aquelas tiras de pano em jogos de cores, formas e volumes. Não foi preciso mais. O que importava mesmo eram as vozes dos artistas.

Vinte minutos depois da hora marcada no bilhete surgem os músicos e, finalmente, Mariza pisa o palco em Ponte de Lima.

Há cerca de dois meses tive oportunidade de ver na televisão um espectáculo de Mariza e Paulo Gonzo, o que me proporcionou um termo de comparação para este espectáculo. Mariza é uma excelente cantora. Não me parece que improvise enquanto canta. Deve ensaiar até à exaustão cada nota de música para que nada falhe. Afinal de contas, é uma das grandes fadistas portuguesas e há uma reputação a manter. O que varia é a sua interacção com o público que, diga-se desde já, não podia ser melhor. Provoca, anima, confronta e graceja, dependendo muito da reacção que o público vai tendo durante a actuação. Nesta actuação em particular, a reacção do público foi, no início, de veneração pela diva e, no fim, de total euforia. A veneração sentia-se pelos silêncios na música que faziam eco entre os espectadores. A euforia manifestou-se pelas danças improvisadas entre a plateia, os braços no ar e as palmas. Já que falo de público, devo também elogiá-lo, uma vez que nunca vi um público tão afinado a cantar e com tanta noção de ritmo a bater palmas.

Tito Paris não podia ser mais diferente de Mariza em todos os aspectos. E deve ser por isso que resultam tão bem enquanto dupla em palco. Tito Paris trabalha mais "solto", mais no improviso... mas tudo com bastante profissionalismo. Os ritmos de Cabo Verde contagiaram o público que delirou quando Mariza e Tito Paris deram uns passinhos de dança.

A amplificação sonora estava q. b. e a qualidade sonora estava acima de qualquer crítica. Para além de Mariza e Tito Paris, saliento também a intervenção do percussionista, que nos brindou com alguns solos estrondosos.

Como conclusão, foi um final de noite bem passado, junto de músicos que elevam bem alto a fasquia da qualidade da música portuguesa e cabo-verdiana.

quarta-feira, julho 28, 2010

Regresso a "Zero"

No que toca a leituras, existem duas temáticas que me agradam mais: divulgação científica e ficção científica.

Se me pedirem para concretizar o primeiro contacto que tive com a ficção científica, terei de referir o Regresso a "Zero", da autoria de Stefan Wul (escritor francês, 1922-2003) e publicada pelo Círculo de Leitores. Lembro-me, quando era pequeno, de pegar este livro da estante do meu pai e de ler alguns trechos.


Depois de vinte e muitos anos volvidos, senti-me com coragem para lê-lo do princípio ao fim (não pelas 143 páginas que o compõem mas pelo medo de não gostar do conteúdo).

A lua acha-se transformada, pelo governo da Terra, num imenso campo de concentração para condenados à pena máxima. A certa altura, porém, sabe-se que os Lunares preparam um ataque aos Terrenos. Um sábio é, então, enviado para o satélite com a incumbência de evitar o regresso a "zero" previsto pelos invasores. Entre os múltiplos problemas que Jâ Benal, assim se chama o sábio, tem de enfrentar avulta a operação a uma sua perna, efectuada por equipas de cirurgiões miniaturizados. Esta e muitas outras peripécias empolgantes continuam a fazer de Regresso a "0" uma obra cheia de génio, de clarividência, de poesia e de confiança inabalável na capacidade criativa do Homem. Foi-lhe atribuído em França (1956), o Grande Prémio do Romance de Ficção Científica.

No final do livro fiquei com a sensação que existem duas velocidades na narrativa e que poderiam ter sido acrescentadas mais 143 páginas. O título engana um pouco porque o regresso a zero só acontece, de facto, a poucas páginas do fim e é descrito com demasiada superficialidade em relação ao resto. Como todos os livros de ficção científica, existem partes em que a imaginação do escritor peca por excesso e outras, por defeito, já que não se consegue livrar de alguns pormenores técnicos que estariam em voga em 1956 mas que são projectados no futuro quase incólumes.

Este livro é o primeiro de uma série de 11 que o escritor publicou na segunda metade dos anos 50 do século XX. O décimo segundo e último, só surgiria em 1977.

terça-feira, julho 27, 2010

Teletransporte

Se houvesse esta tecnologia, bem ao estilo de Star Trek, gostaria de ser teletransportado do meu local de trabalho (aka Sauna) para o Campo Pequeno... e ficar lá... calmamente... à espera de Mark Knopfler. Talvez levasse novamente com o brilho da guitarra mítica nas trombas, como aconteceu em 1996 no Coliseu do Porto. Desta vez Mark, desculpa-me. Não vou poder ir. A minha alma sofre e espera por uma próxima oportunidade.

quinta-feira, julho 22, 2010

"Caderneta de Cromos" por Vítor

Ultimamente tive curiosidade em ouvir os PodCasts do programa de Nuno Markl na Rádio Comercial intitulado "Caderneta de Cromos". Concordo com ele quando afirma no primeiro programa desta série: "Não há geração mais bizarramente nostálgica do que a nossa [geração de 70-80]". Fui fazer uma leitura mais atenta do meu blog e encontrei nele algumas nostalgias desses tempos e outras coisas que, não sendo desses tempos, podem vir a ser, no futuro, consideradas nostalgias. Assim sendo, criei uma nova etiqueta intitulada "Caderneta de Cromos" por Vítor.

quarta-feira, julho 21, 2010

Semiótica

Semiótica - (s. f.) Ciência dos modos de produção, de funcionamento e de recepção dos diferentes sistemas de sinais de comunicação entre indivíduos ou colectividades.

Uma das minhas funções enquanto Web Designer é a de criar os mais variados ícones para interfaces que actuam como elementos informativos ou que despoletam um qualquer tipo de acção.

Este processo criativo pode ser bastante difícil, dependendo do que o ícone é suposto representar.

No início do desenvolvimento do Sistema de Informação da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, pareceu-me ser uma boa ideia recorrer à analogia dos sinais de trânsito para ilustrar algumas respostas do sistema a acções do utilizador.

Assim, utilizou-se, entre outros:

  • Sentido Proibido - o utilizador não tem permissões para aceder a uma página (ultimamente optou-se por retirar este símbolo uma vez que alguns utilizadores consideravam-no "chocante");
  • Via Sem Saída - o sistema não encontrou dados para a pesquisa efectuada;
  • Perigos Vários - chamada de atenção sobre determinadas acções ou informações;
  • Via Sem Cruzamentos de Nível (Auto-estrada) - a informação foi submetida com sucesso.
O fascínio pelos sinais de trânsito vem dos meus tempos de criança. Recordo-me de receber como presente o jogo "Sinais de Trânsito - Loto" da Majora, em tudo igual ao loto normal mas em que os números eram substituídos por sinais de trânsito. Também fui presenteado com outro jogo intitulado "Sinais de Trânsito", fabricado em Oliveira de Azeméis e que era composto por um conjunto de sinais de trânsito e por dois carrinhos de Fórmula 1 (como se os carros de Fórmula 1 tivessem, na sua actividade comum, de respeitar os sinais de trânsito). O intuito deste último jogo era dispor os sinais de trânsito ao nosso bel-prazer e depois, com os carrinhos, percorrer os sinais de trânsito respeitando as suas indicações.


Se pensarmos bem, os sinais de trânsito dão-nos algumas pistas acerca do processo da criação de ícones para aplicações:

  • Os desenhos devem ser simples e inequívocos;
  • A paleta de cores deve ser criteriosamente estudada para proporcionar o melhor contraste possível tendo em vista a correcta identificação do que está representado;
  • As cores podem ser associadas a determinados contextos (vermelho - perigo ou proibição; azul - informação) desde que não exista quebra do contexto em toda a aplicação e desde que a cor não seja o único elemento identificativo de um determinado contexto (pense-se nos indivíduos que não conseguem ter uma percepção normal das cores);
  • As formas dos sinais podem ser associadas a determinados contextos (triângulo - perigo; circular - proibição; quadrado - informação) desde que não exista quebra do contexto em toda a aplicação. Note-se que, no caso dos sinais de trânsito, existem formas especiais como o triângulo invertido (perda de prioridade) e o octógono (stop) que tanto informam o condutor que se apresenta a esse sinal de frente como o condutor que vê o sinal "de costas".

segunda-feira, julho 19, 2010

What Makes Them Click?

Acabei de (re)ler este fim-de-semana o livro de Susan Weinschenk (aka Brain Lady) "Neuro Web Design - What Makes Them Click?".


É um livro bastante interessante, na medida em que enquadra o design de sites para a Web tendo em conta a forma como o nosso cérebro funciona. Isto traduz-se em sites mais persuasivos.

Embora o ênfase seja dado a sites comerciais, as linhas orientadoras podem ser aplicadas a outro tipo de situações, incluindo aquelas que, para mim, são mais interessante: sites institucionais ligados à educação universitária.

É um livro que se lê com facilidade, cheio de exemplos práticos e de ideias que podem ser utilizadas de imediato. A perspectiva psicológica sobre a mente humana, principalmente ao nível do sub-consciente, dá-nos uma visão mais profunda sob a forma como nós, os humanos, somos atraídos pelos conteúdos da Web. Ensina-nos a lidar com o sub-consciente e quais as zonas do cérebro que devemos estimular para tornarmos o nosso site mais efectivo e apelativo.

Uma leitura a não perder por todos aqueles que se interessam pela Acessibilidade e Usabilidade Web.

sexta-feira, julho 16, 2010

Guia Prático do Condutor Acéfalo - 05

Se existir uma estrada estreita em que você passa todos os dias e na qual, por norma, não se cruza com veículos nenhuns (mais conhecidas por estradas do "lá vem um"), poderá assumir sem sombra de dúvidas que essa situação irá manter-se todas as vezes em que circular pela referida estrada. Assim, aconselha-se a que ande acima dos limites de velocidade permitidos e que corte o maior número de curvas que puder (poupando tempo e os pneus do carro), principalmente se as curvas forem fechadas e com pouca visibilidade.

quarta-feira, julho 14, 2010

Balada Africana

Ontem acabei de ler este livro, emprestado pelo meu pai há já algum tempo. Ex-combatente do ultramar, é inegável a influência que África tem na vida do meu pai. Isso comprova-se ao olharmos para a estante de livros que ele tem em casa. A "Balada Africana" é, sem sombra de dúvida, um dos seus livros preferidos e foi por isso que ele aconselhou-me a lê-lo.

O título original é "The Curve and the Tusk" e foi escrito em 1952. Stuart Cloete, o seu autor, relata neste livro uma história profundamente marcada por África: os usos e costumes dos seus povos, a relação que o homem branco tem com África e com os negros e a flora e fauna africanas com ênfase nos grandes paquidermes.

Considerei o livro de leitura fácil (embora estivesse escrito em português do brasil) e empolgante. Existem bastantes pensamentos filosóficos sobre a vida. As descrições são por vezes doces e maravilhosas e por outras cruas e directas, mas bem balanceadas. Há também alguma tensão erótica em certos trechos mas tudo muito bem escrito e estruturado.

Deve ler-se este livro tendo em linha de conta o período e o contexto em que foi escrito, na medida em que certos pensamentos do autor poderão roçar o racismo (a que não estará alheia a sua permanência em África-do-Sul, na altura ainda dominada pelo apartheid).


Deixo-vos agora com a sinopse que acompanha este livro.

BALADA AFRICANA é um grande e belo livro que singularmente se destaca do panorama das literaturas de África que só nos últimos anos começaram a impôr-se. O seu autor, Stuart Cloete, nasceu em Paris em 1897, descendendo de uma família sul-africana que o fez educar na Inglaterra. Participou da primeira guerra mundial, fixando-se depois no Transvaal (África do Sul), como fazendeiro. Ali viveu até 1935, quando decidiu viajar através do mundo.

A maioria dos romances de Stuart Cloete evocam a colonização da África do Sul através dos boers e dos ingleses, assim como a vida das tribos nativas. Um deles, "As rodas que giram" ("The Turning Wheels"), foi "best seller" nos Estados Unidos, levado para a tela e traduzido em 10 línguas.

BALADA AFRICANA é uma história de caçadas e de aventuras nas florestas de Moçambique, região que Stuart Cloete conhece perfeitamente, pois a sua fazenda do Transvaal ficava próxima da fronteira moçambicana. Mas, a pretexto de nos contar a história de dois elefantes, o escritor sul-africano fala-nos, sobretudo, dos negros e dos brancos que vivem em África, de suas reações, esperanças e desilusões. Por isso é que o romance interessará a um vasto público, desde os leitores que preferem as aventuras empolgantes àqueles que desejam conhecer melhor o chamado Continente Negro. Na verdade, nesta obra se reúnem duas das características que definem a literatura dos nossos dias - a ação e a realidade física e moral em que evoluem as personagens.

Stuart Cloete pretende esclarecer, na medida do possível, "o negro panorama africano", isto é, "explicar o grande problema da África, que é o problema branco". E nesta afirmação aparentemente paradoxal se concentra, em resumo, o drama dos povos africanos que chegam à encruzilhada: para onde vão os negros?

BALADA AFRICANA não é, porém, um livro de tese, nem tampouco coloca a questão africana sob o aspecto exclusivamente político. Aliás, o cenário do romance é simples, mas apaixonante: na selva, vivem dois elefantes sem mêdo; para a selva se encaminha também Maxupa, o jovem negro que ama N'Tembi, mas que dela deve separar-se para acalmar a ira dos deusus; Maxupa infringe, porém, a determinação de Têmbula, o feiticeiro, e é destruído, assim como N'Tembi e a filhinha de ambos, pelos dois elefantes furiosos. Dois caçadores, o velho Carew e o Jovem Maniero, procuram tranquilizar as populações aterrorizadas, abatendo os elefantes endemoninhados, mas um deles é ferido de morte...

Por detrás da aventura, está a África que Stuart Cloete nos sugere com realismo, quando declara: "O africano precisa de tornar-se mais do que é -um homem civilizado - ou menos do que é - um animal perigoso com forma humana. No que êle se tornará é coisa que depende menos dele do que de nós.

João Alves das Neves

Shallow

Tell me somethin', girl Are you happy in this modern world? Or do you need more? Is there somethin' else you're searchin...