Um dos motivos da minha alcunha (ou alias) El Gitano é devido ao facto de gostar bastante de música cigana, flamenco e afins.
Comprei em tempos um CD dos Gipsy Kings, que na verdade é uma edição limitada com um DVD de bónus que contém um overview sobre o período de gravação do álbum, uma entrevista com o produtor e algumas imagens inéditas sobre o passado dos Gipsy Kings.
O álbum chama-se Roots e é de facto um retorno às origens da música Cigana. Embora sejam todos temas originais, são inspirados em Fandangos (cantados apenas com voz e guitarra) e Boleros. Usaram os instrumentos 'Gitanos' tradicionais: guitarra, claps, batidas, um contra-baixo (o menos tradicional), harpa e uma harmónica.
Pode comparar-se este álbum com 'Luna de Fuego' (um dos primeiros), na medida em que não utilizam instrumentos electrónicos. No entanto, existem diferenças: este último dava a sensação de uma arena, enquanto que Roots é mais intimista.
Roots foi gravado fora de estúdio, numa casa rústica do Sul da França, o que dá uma sonoridade bastante interessante às vozes e aos instrumentos. Recomendo vivamente aos apreciadores do género.
Um blog de Vítor Carvalho.
Algumas reflexões sobre acessibilidade, usabilidade e design para a Web, ideias, desabafos, viagens, humor, crítica e fotografias...
segunda-feira, março 19, 2007
Era Pimba
Eu pertenço orgulhosamente à Geração Rasca... aquela que fez a PGA, mostrou o rabo ao ministro da educação, etc. e tal.
Agora parece que vamos entrar na Era Pimba. Os sinais estão aí! Quem quiser ver, que veja:
Agora parece que vamos entrar na Era Pimba. Os sinais estão aí! Quem quiser ver, que veja:
- Sabrina vai representar Portugal no Festival da Canção 2007 com a música intitulada "Dança Comigo (Vem Ser Feliz)", da autoria de Emanuel e Tó Maria Vinhas;
- Paulo Portas está prestes a ser o novo líder do CDS-PP;
- Santana Lopes admite candidatar-se a líder do PPD-PSD.
Tenham medo, meus senhores! Tenham muito medo!
As opiniões vinculadas através de posts com o label "Teoria da Conspiração" não devem ser levados a sério. Qualquer semelhança com situações, locais ou pessoas reais é mera coincidência. Não existem provas de nada que se escreva no âmbito deste post.
quarta-feira, março 14, 2007
Cuca, O Saltimbanco Destemido - Capítulo II
Feitas que estão as apresentações, a estória pode começar.
Estava uma calma tarde de primavera. O sol punha-se pachorrentamente no horizonte, com uma cor que fazia lembrar a cara de alguém que estivesse bastante envergonhado. Cuca brincava com o Monstro, atirando-lhe pedacitos de pão, que o bicho apanhava velozmente, ainda no ar, dando-lhes dentadas. Lurdinhas, com o cabelo apanhado e um avental que apertava as suas formas roliças, dava de comer ao par de cavalos que puxavam a roulotte. À falta de melhor, Cuca tinha-os baptizado de Piolho e Lêndea. Perdoe-me o leitor que a apresentação destas últimas personagens de relevo pertencentes aos domínios do Cuca não tivesse sido feita no capítulo anterior.
- Luuurdes... tás a dar de comer ao Piolho e à Lêndea? - perguntou Cuca.
- Atão não vês que é o que estou a fazer? Se deixasses de brincar com o Monstro e fosses fazer algo de mais útil, fazias melhor! - respondeu Lurdinhas.
- E estou a fazer algo de útil! Estou a dar de comer ao bicho!
- Às prestações... deixa aí a carcaça toda que ele come na mesma! E tu ficas com tempo, por exemplo, para arrumares a bagunçada que está dentro da roulotte!
- O coitado pode-se entalar... é certo que tem uma boca de piranha... mas se lhe dou a carcaça toda ainda se entala com ela! Mais vale partí-la e dar-lha assim... Sempre vai treinando as mordidelas... se aparecer por aqui algum gatuno...
- Olha... o maior gatuno ainda és tu...
- Levas-me uma lamparina nessas beiças...
- Prontos... tinha de acabar em discussão!
E acabava quase sempre em discussão. Viviam possivelmente há demasiado tempo juntos. Três anos a olharem para o focinho um do outro, sem interrupções, levava-os a confrontos fáceis. Discutiam, amuavam, ia cada um para o seu canto e depois, devagarinho, começavam a falar um com o outro. Primeiro, com frases curtas. Depois, com discursos melosos. Mais tarde, com beijos e abraços que se prolongavam pela noite dentro.
Depois da discussão ter de facto acontecido, o diálogo continuou já na fase das frases curtas:
- Amanhã de manhã partimos daqui?
- Sim.
- P'ra onde?
- Em direcção ao Castelo... sabes bem!
- Queres ir ao Castelo?
- Quero.
- Fazer o quê?
- Mostrar-te uma coisa que não vais acreditar...
Estava uma calma tarde de primavera. O sol punha-se pachorrentamente no horizonte, com uma cor que fazia lembrar a cara de alguém que estivesse bastante envergonhado. Cuca brincava com o Monstro, atirando-lhe pedacitos de pão, que o bicho apanhava velozmente, ainda no ar, dando-lhes dentadas. Lurdinhas, com o cabelo apanhado e um avental que apertava as suas formas roliças, dava de comer ao par de cavalos que puxavam a roulotte. À falta de melhor, Cuca tinha-os baptizado de Piolho e Lêndea. Perdoe-me o leitor que a apresentação destas últimas personagens de relevo pertencentes aos domínios do Cuca não tivesse sido feita no capítulo anterior.
- Luuurdes... tás a dar de comer ao Piolho e à Lêndea? - perguntou Cuca.
- Atão não vês que é o que estou a fazer? Se deixasses de brincar com o Monstro e fosses fazer algo de mais útil, fazias melhor! - respondeu Lurdinhas.
- E estou a fazer algo de útil! Estou a dar de comer ao bicho!
- Às prestações... deixa aí a carcaça toda que ele come na mesma! E tu ficas com tempo, por exemplo, para arrumares a bagunçada que está dentro da roulotte!
- O coitado pode-se entalar... é certo que tem uma boca de piranha... mas se lhe dou a carcaça toda ainda se entala com ela! Mais vale partí-la e dar-lha assim... Sempre vai treinando as mordidelas... se aparecer por aqui algum gatuno...
- Olha... o maior gatuno ainda és tu...
- Levas-me uma lamparina nessas beiças...
- Prontos... tinha de acabar em discussão!
E acabava quase sempre em discussão. Viviam possivelmente há demasiado tempo juntos. Três anos a olharem para o focinho um do outro, sem interrupções, levava-os a confrontos fáceis. Discutiam, amuavam, ia cada um para o seu canto e depois, devagarinho, começavam a falar um com o outro. Primeiro, com frases curtas. Depois, com discursos melosos. Mais tarde, com beijos e abraços que se prolongavam pela noite dentro.
Depois da discussão ter de facto acontecido, o diálogo continuou já na fase das frases curtas:
- Amanhã de manhã partimos daqui?
- Sim.
- P'ra onde?
- Em direcção ao Castelo... sabes bem!
- Queres ir ao Castelo?
- Quero.
- Fazer o quê?
- Mostrar-te uma coisa que não vais acreditar...
terça-feira, março 06, 2007
Independência Implícita
Alguns textos dispersos...
"O governante [Mariano Gago, Ministro do Ensino Superior] questiona os pressupostos de funcionamento dos 14 cursos da Universidade [Independente], prometendo "as medidas necessárias para a salvaguarda dos interesses dos alunos", refere em comunicado."
"O governante [Mariano Gago, Ministro do Ensino Superior] questiona os pressupostos de funcionamento dos 14 cursos da Universidade [Independente], prometendo "as medidas necessárias para a salvaguarda dos interesses dos alunos", refere em comunicado."
in DN OnLine 28.02.2007
"José Sócrates [Primeiro Ministro de Portugal] é bacharel em Engenharia Civil pelo Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (1978), e completou a licenciatura na Universidade Independente em Lisboa (1996)".
in Wikipedia 27.02.2007
As opiniões vinculadas através de posts com o label "Teoria da Conspiração" não devem ser levados a sério. Qualquer semelhança com situações, locais ou pessoas reais é mera coincidência. Não existem provas de nada que se escreva no âmbito deste post.
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
Cuca, O Saltimbanco Destemido - Capítulo I
"Saltimbanco - do It. saltimbanco, salta em banco, s. m., pelotiqueiro; histrião; ginasta ou acrobata que se exibe nas feiras, festas, etc. ; charlatão de feira ou de circo."
É difícil contextualizar esta estória no espaço e no tempo. Só se pode dizer que foi há muito tempo atrás, em local incerto. Não existia nesse tempo nenhuma das modernices a que nós estamos acostumados hoje em dia. O automóvel, por exemplo, era uma curiosidade apenas acessível aos mais afortunados habitantes das grandes urbes. Mas também não é numa urbe que a nossa estória se conta. Imagine o leitor o cenário mais idílico que conseguir e terá quase conseguido apreender o espaço que servirá de pano de fundo a este negro romance.
Teotónio Marialva. Dito assim, provavelmente não lhe dirá nada. Se for dito de outra forma, provavelmente continuará a não lhe dizer nada... pelo menos por agora. Teotónio Marialva era conhecido entre o seu rol de amigos mais chegados como Cuca.
Cuca vivia numa roulotte, ao estilo dos ciganos, puxada por cavalos. Lá dentro, tinha apenas o indispensável para lhe proporcionar um mínimo de conforto nas longas jornadas que fazia: uma cama, partilhada com a sua companheira de aventuras, Lurdinhas dos Prazeres. Também por lá andavam uma mesa e duas cadeiras, que dançavam por todo o lado durante as viagens, partindo, por vezes, os poucos pertences do casal. A um canto, um armário com portas que fechavam, guardava os copos, pratos e garfos do parco enxoval. Num outro canto, um baú. Era o baú do Cuca. E aí ninguém mexia! Só ele! Lá dentro, estavam os ingredientes indispensáveis para a confecção do seu Elixir da Boa Saúde, que vendia pelas feiras e mercados. Da parte de fora da casa ambulante, preso por uma trela relativamente longa, deambulava o Monstro... um pequeno caniche de olhar ameaçador e dentes afiados, que se atirava a todos que se tentassem aproximar da roulotte. Por vezes, Cuca esquecia-se de o desprender da roulotte quando iniciava mais uma das suas viagens, arrastando o pobre do bicho durante algumas centenas de metros, antes de se aperceber do erro que havia cometido.
É difícil contextualizar esta estória no espaço e no tempo. Só se pode dizer que foi há muito tempo atrás, em local incerto. Não existia nesse tempo nenhuma das modernices a que nós estamos acostumados hoje em dia. O automóvel, por exemplo, era uma curiosidade apenas acessível aos mais afortunados habitantes das grandes urbes. Mas também não é numa urbe que a nossa estória se conta. Imagine o leitor o cenário mais idílico que conseguir e terá quase conseguido apreender o espaço que servirá de pano de fundo a este negro romance.
Teotónio Marialva. Dito assim, provavelmente não lhe dirá nada. Se for dito de outra forma, provavelmente continuará a não lhe dizer nada... pelo menos por agora. Teotónio Marialva era conhecido entre o seu rol de amigos mais chegados como Cuca.
Cuca vivia numa roulotte, ao estilo dos ciganos, puxada por cavalos. Lá dentro, tinha apenas o indispensável para lhe proporcionar um mínimo de conforto nas longas jornadas que fazia: uma cama, partilhada com a sua companheira de aventuras, Lurdinhas dos Prazeres. Também por lá andavam uma mesa e duas cadeiras, que dançavam por todo o lado durante as viagens, partindo, por vezes, os poucos pertences do casal. A um canto, um armário com portas que fechavam, guardava os copos, pratos e garfos do parco enxoval. Num outro canto, um baú. Era o baú do Cuca. E aí ninguém mexia! Só ele! Lá dentro, estavam os ingredientes indispensáveis para a confecção do seu Elixir da Boa Saúde, que vendia pelas feiras e mercados. Da parte de fora da casa ambulante, preso por uma trela relativamente longa, deambulava o Monstro... um pequeno caniche de olhar ameaçador e dentes afiados, que se atirava a todos que se tentassem aproximar da roulotte. Por vezes, Cuca esquecia-se de o desprender da roulotte quando iniciava mais uma das suas viagens, arrastando o pobre do bicho durante algumas centenas de metros, antes de se aperceber do erro que havia cometido.
Biografia Sussinta de Casimiro Lambreta
Casimiro Lambreta, nascido em Lisboa a 19 de Janeiro de 1953, na freguesia de Alfama, de ascendência simples e pobre, desde cedo cresceu a ouvir o fado vadio e os pregões das varinas.Não é de estranhar que se tenha tornado escritor, poeta e homem de letras, depois de ter falhado uma carreira de palhaço no circo Ringland.
É autor de livros best-seller como: "Eduardo, Mais um Jovem com Acne", "Divagações Sobre O Combustível Verde", ou ainda "O Teu Coração É Um Pudim de Noz". Na poesia, escreveu alguns textos dispersos, mas ultimamente o seu editor tem reunido estes poemas em antologias tais como: "Canto dos Repolhos", "Diversos Hinos Sobre a Unicidade do Ser", "Reflexos de Um Lamaçal" ou, aquele que é considerado por muitos o expoente da poesia portuguesa: "Desfaz-me Com Versos Cortantes".
Nos dias que correm, fez do Alentejo o seu local para viver. Vida sofrida, aquela que Casimiro Lambreta teve. Em Abril de 1974, quando outros andavam preocupados com revoluções, Casimiro Lambreta resolveu percorrer de Lambreta, os quatro cantos de Portugal, tendo surgido daí a sua alcunha.
Casimiro Lambreta dedica agora mais tempo para aquilo que lhe é realmente importante: escrever!
Neste momento, trabalha em duas obras paralelas: "Amor na Lota do Peixe", um romance que muitos consideram autobiográfico com laivos de ficção científica e "Cuca, o Saltimbanco Destemido".
Este Blog servirá de divulgação das obras de Casimiro Lambreta. Depois de "Amor na Lota do Peixe", segue-se o romance negro "Cuca, o Saltimbanco Destemido". A não perder!
Amor na Lota do Peixe - Capítulo X (e último)
Aquela lota nunca mais foi a mesma... não depois que viram partir Olívia Manca e o extraterrestre em direcção ao ponto onde o mar e o céu se fundem.
Na modesta embarcação, o casal seguiu calmamente o seu destino.
- Diga-me, senhor extraterrestre... o seu planeta é bonito?
- Diz-me, Olívia Manca... ainda consegues avistar terra?
- Não... só vejo água à nossa volta!
- Óptimo! Que isto já me estava a fazer calor!
Num ápice, a criatura despiu a sua fantasia de extraterrestre, deixando pela primeira vez a sua verdadeira identidade brilhar sob o sol do meio-dia. Pasmai: Zé Bigodes.
- Zé Bigodes? Tu, por baixo de uma fantasia de extraterrestre mascarada pela fantasia de russo? Mas por quê?
- Eu explico, Olívia Manca! É tudo muito simples: a minha mãe, Sezaltina Buços teve um caso com Joselino Narigangas, mas encontrava-se também com Florindo Lambreta, nos dias em que estava de folga dos trabalhos da quinta. Numa dessas folgas, a minha mãe levou mais para a frente a relação que tinha com Florindo Lambreta e eu nasci. De comum acordo, ambos acharam melhor que Joselino Narigangas fosse considerado o verdadeiro pai da criança. Assim, sempre puderam extorquir uma soma avultada de massa aos marretas dos Narigangas, que pagaram forte e feio pelo silêncio da minha mãe. O dinheiro era tanto que deu para ela e para o meu verdadeiro pai: Florindo Lambreta! Como vês, não somos meios-irmãos e por isso, o nosso amor é cem-por-cento válido! Quando a paixão nasceu entre nós os dois, eu e o meu pai, pensamos num plano para que eu conseguisse ficar contigo, sem desmascarar os factos sobre a minha verdadeira filiação. Florindo Lambreta, o meu amado pai, foi espião da rússia durante muitos anos aqui em Portugal e reconhecido lutador pelos direitos comunistas, para infelicidade das gentes de Vila Marmota. Como contrapartida, os russos proporcionam-lhe algumas facilidades em vários campos. Basicamente, eis o plano que arquitectámos: Faz hoje uma semana, eu e o meu pai fomos à Russia. Nos laboratórios federais, os russos fizeram um clone de mim mesmo. O seu envelhecimento foi acelerado numa incubadora até que ficássemos os dois com a mesma idade e com o mesmo aspecto. Regressámos depois os três a Portugal num submarino de aluguer a propulsão nuclear, que ficou ao largo da costa portuguesa. Hoje de madrugada, quando fui à faina, naveguei em direcção ao submarino e troquei de lugar com o meu clone, que engoliu de propósito um pouco de plutónio. Ele veio ao encontro das gentes de Vila Marmota e deu-me pé para entrar na estória, salvando o meu clone da contaminação pelo Plutónio. Como esta vila é contra o comunismo, seria mais fácil para esta gente aceitar o teu casamento com um extraterrestre do que com um apoiante do comunismo russo! Felizmente tu conseguiste ver o meu disfarce de russo e puseste a descoberto o meu disfarce de extraterrestre. Como tu não sabias de nada, agiste por instinto, o que deu mais realismo à cena. O meu clone, Zé Bigodes II, viverá naquela comunidade cumprindo todas as tradicções de Vila Marmota e nós não nos teremos que preocupar mais com os outros, porque todos pensam que estamos noutro planeta. A felicidade perfeita, mon amour!
- Ó Zé Bigodes! Meu Zé Bigodes! E tudo isto por mim!
- Sim! Por ti, minha estrela da madrugada, meu recife de coral multicolor, minha estrelinha do mar, minha pérola do oceano!
Zé Bigodes, entretido que estava a encontrar adjectivos que descrevessem Olívia Manca, não reparou num pequeno rochedo que conseguiu rasgar uma das paredes do bote de borracha. Consta-se que depois do desastre, ambos nadaram até às ilhas Maldivas, onde chegaram cansados, mas felizes.
Entretanto, em Vila Marmota, Miquelina Zarolha apresentava a sua última teoria ao mar de gente que se acotovelava perto do pelourinho onde a discursante se encontrava.
- ...por isso, não vos deixeis iludir, ingénua gente! Eu posso garantir-vos que Zé Bigodes é um clone do verdadeiro Zé Bigodes, que partiu com Olívia Manca para uma vida incestuosa!
Joselino Narigangas, de porte fino, altivo e com palavras escolhidas a dedo, fez ressaltar a sua voz no meio da multidão, cheia de conteúdo poético:
- Empalem-me essa velha caquética!
FIM
Na modesta embarcação, o casal seguiu calmamente o seu destino.
- Diga-me, senhor extraterrestre... o seu planeta é bonito?
- Diz-me, Olívia Manca... ainda consegues avistar terra?
- Não... só vejo água à nossa volta!
- Óptimo! Que isto já me estava a fazer calor!
Num ápice, a criatura despiu a sua fantasia de extraterrestre, deixando pela primeira vez a sua verdadeira identidade brilhar sob o sol do meio-dia. Pasmai: Zé Bigodes.
- Zé Bigodes? Tu, por baixo de uma fantasia de extraterrestre mascarada pela fantasia de russo? Mas por quê?
- Eu explico, Olívia Manca! É tudo muito simples: a minha mãe, Sezaltina Buços teve um caso com Joselino Narigangas, mas encontrava-se também com Florindo Lambreta, nos dias em que estava de folga dos trabalhos da quinta. Numa dessas folgas, a minha mãe levou mais para a frente a relação que tinha com Florindo Lambreta e eu nasci. De comum acordo, ambos acharam melhor que Joselino Narigangas fosse considerado o verdadeiro pai da criança. Assim, sempre puderam extorquir uma soma avultada de massa aos marretas dos Narigangas, que pagaram forte e feio pelo silêncio da minha mãe. O dinheiro era tanto que deu para ela e para o meu verdadeiro pai: Florindo Lambreta! Como vês, não somos meios-irmãos e por isso, o nosso amor é cem-por-cento válido! Quando a paixão nasceu entre nós os dois, eu e o meu pai, pensamos num plano para que eu conseguisse ficar contigo, sem desmascarar os factos sobre a minha verdadeira filiação. Florindo Lambreta, o meu amado pai, foi espião da rússia durante muitos anos aqui em Portugal e reconhecido lutador pelos direitos comunistas, para infelicidade das gentes de Vila Marmota. Como contrapartida, os russos proporcionam-lhe algumas facilidades em vários campos. Basicamente, eis o plano que arquitectámos: Faz hoje uma semana, eu e o meu pai fomos à Russia. Nos laboratórios federais, os russos fizeram um clone de mim mesmo. O seu envelhecimento foi acelerado numa incubadora até que ficássemos os dois com a mesma idade e com o mesmo aspecto. Regressámos depois os três a Portugal num submarino de aluguer a propulsão nuclear, que ficou ao largo da costa portuguesa. Hoje de madrugada, quando fui à faina, naveguei em direcção ao submarino e troquei de lugar com o meu clone, que engoliu de propósito um pouco de plutónio. Ele veio ao encontro das gentes de Vila Marmota e deu-me pé para entrar na estória, salvando o meu clone da contaminação pelo Plutónio. Como esta vila é contra o comunismo, seria mais fácil para esta gente aceitar o teu casamento com um extraterrestre do que com um apoiante do comunismo russo! Felizmente tu conseguiste ver o meu disfarce de russo e puseste a descoberto o meu disfarce de extraterrestre. Como tu não sabias de nada, agiste por instinto, o que deu mais realismo à cena. O meu clone, Zé Bigodes II, viverá naquela comunidade cumprindo todas as tradicções de Vila Marmota e nós não nos teremos que preocupar mais com os outros, porque todos pensam que estamos noutro planeta. A felicidade perfeita, mon amour!
- Ó Zé Bigodes! Meu Zé Bigodes! E tudo isto por mim!
- Sim! Por ti, minha estrela da madrugada, meu recife de coral multicolor, minha estrelinha do mar, minha pérola do oceano!
Zé Bigodes, entretido que estava a encontrar adjectivos que descrevessem Olívia Manca, não reparou num pequeno rochedo que conseguiu rasgar uma das paredes do bote de borracha. Consta-se que depois do desastre, ambos nadaram até às ilhas Maldivas, onde chegaram cansados, mas felizes.
Entretanto, em Vila Marmota, Miquelina Zarolha apresentava a sua última teoria ao mar de gente que se acotovelava perto do pelourinho onde a discursante se encontrava.
- ...por isso, não vos deixeis iludir, ingénua gente! Eu posso garantir-vos que Zé Bigodes é um clone do verdadeiro Zé Bigodes, que partiu com Olívia Manca para uma vida incestuosa!
Joselino Narigangas, de porte fino, altivo e com palavras escolhidas a dedo, fez ressaltar a sua voz no meio da multidão, cheia de conteúdo poético:
- Empalem-me essa velha caquética!
FIM
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