Um blog de Vítor Carvalho.
Algumas reflexões sobre acessibilidade, usabilidade e design para a Web, ideias, desabafos, viagens, humor, crítica e fotografias...
terça-feira, outubro 03, 2006
Amor na Lota do Peixe - Capítulo VI
- Zé Bigodes! Tu impõe-te! - ordenou Olívia Manca.
Zé Bigodes saíu do canto escuro e colocou-se no meio do mar de gente, que abriu uma clareira desafogada para evitar qualquer tipo de contágio. Olhando em volta, Zé Bigodes sentiu-se Moisés.
- Povo de Vila Marmota! Chegou a altura de eu fazer um discurso sobre o meu estado actual e sobre as evoluções dos factos nas últimas horas. Estou radioactivo... assumo-o! Sou um radioactivo assumido, que estas coisas são mesmo assim e não há volta a dar-lhe. Recuso a paternidade de Joselino Narigangas. O digníssimo Presidente da Junta de Freguesia de Vila Marmota nunca exerceu funções de pai para comigo até aos meis vinte e sete anos... não é agora que ele vai começar a fazê-lo! Para todos os efeitos, o meu pai continuará a ser o meu pai adoptivo, o meu amado Florindo Lambreta. E tu, Olívia Manca... criatura na qual deposito todo o meu amor, todo o meu ser, toda a minha alma... vai! Parte! Prefiro ver-te partir sem mim, a ver-te contaminada por radiações! Se fôssemos em frente com a nossa relação, iríamos parecer um casal de pirilampos, e fazer amor no escuro, revelar-se-ia uma tarefa impossível! Sou um desgraçado!
Dona Miquelina Zarolha, consultando um antigo caderninho de apontamentos, virou-se para Francisco Panças e disse:
- De qualquer forma, seria impossível que eles casassem, não é verdade?
- Não sei a que vos referis, velha gaiteira! - ripostou amargamente, Francisco Panças.
- Obrigas-me a contar tudo o que sei! Está bem! É que Olívia Manca não é filha de Francisco Panças! A dona Emília Genoveva Cerqueira de Castro Gumercinda de Miranda, mãe de Olívia Manca, teve um caso com Joselino Narigangas pouco antes de casar com Francisco Panças. Este último assumiu a paternidade do bébé, porque ama de facto a tua mãe, Olívia!
- Eu devia ter calculado! Nem tu nem a mãe mancam! A quem é que eu tinha saído? Mas espera lá! O senhor insígne Presidente da Junta de Freguesia de Vila Marmota, também não manca!
- Não! Eu manco! Disfarço é muito bem!
- Claro! Tudo se encaixa agora! Por isso é que a nossa família nunca viu com bons olhos a nossa união incestuosa! E pensando bem, eu também começo a não ver com bons olhos a nossa união incestuosa! - disse Zé Bigodes.
- Eu sabia que devia ter comprado uma máquina de filmar! - disse Godofredo Latinhas - Estamos aqui a construir a história de Vila Marmota! Gerações vindouras falarão deste dia!
No meio da confusão, chega uma personagem alta e loura ao recinto:
- Lasdróbia pravénia! Rachmaninov plutoniescu!
sexta-feira, setembro 29, 2006
Jose Merce
- Adoro música cigana, que vai buscar muita da sua sonoridade ao Flamenco (outra paixão minha);
- Encanta-me a visão romântica sobre o estilo de vida cigano: um povo nómada, sem fronteiras, entregue de corpo e alma à música e à alegria, mantendo um espírito puro.
No flamenco, um dos nomes incontornáveis é o de Jose Merce. Para que entrem um pouco neste espírito gitano, deixo-vos a música "Te Pintaré".
Te pintaré de azul, te pintaré de rosa,
te llevaré a París, eres la más hermosa.
Te pintaré de gris, te pintaré de cielo,
te llevaré a mi mar, yo soy tu marinero.
Toda la noche entre sombras buscando tu imagen, tu cara feliz.
Toda la noche llorando, manchando el viento por ti.
Toda la noche llorando, maldito el momento y en que te perdí.
Y en el silencio de los silencios, la espada que corta el toro,
[ caballo de esparto y oro.
En la vergüenza de la vergüenza, los gritos de un negro toro,
[ lamentos de grito y lloro.
Llévame una tarde al sur, a mi Málaga vieja.
Vamos a bailar tú y yo que hoy es un día de fiesta.
Yo seré siempre del sur, yo seré siempre del sur,
yo seré siempre del sur...y aunque no esté en mi tierra.
O Principezinho

Logo nas primeiras páginas, houve algo que me fez pensar.
O autor diz que as pessoas grandes têm a mania dos números. Se dissermos às pessoas grandes: "Hoje vi uma casa com umas varandas muito bonitas, ladeadas por flores trepadeiras e portas de madeira escura", elas ficam quase na mesma. Mas se lhes dissermos: "Hoje vi uma casa de €250.000"! A coisa muda logo de figura... diriam qualquer coisa como: "Ah! Devia ser uma grande casa"! E isto aplica-se aos mais variados assuntos. As perguntas que as pessoas grandes mais gostam são: "Quantos anos tens"? "Quanto ganhas"? "Quantos filhos tens"? "Há quanto tempo estão casados"? Tudo coisas que envolvam números.
Mesmo para mim que não morro de amores por matemática... dá que pensar.
quarta-feira, setembro 20, 2006
Fiu-Fiu
Já na Preparatória, fui o menino bonito da professora de Educação Visual. Na primeira aula disse-nos para fazermos um desenho que nos identificasse, na capa onde guardaríamos os desenhos ao longo do ano. Fiz um leão. Que convencido! Mas ela adorou o meu leão e todos os outros desenhos que fiz. Eu adorei os cincos que me dava!
Na secundária, o bichinho do desenho cresceu ainda mais. Escolhi a área E - Artes Visuais. No 12º ano desenvolvi a técnica de desenhar, verdadeiramente. Ao concorrer ao ensino universitário, lá puz "Design e Artes Gráficas" na Escola de Belas Artes do Porto, mas em último lugar... isto porque me convenceram que com esse curso, passaria a vida a desenhar nos passeios da Rua de Santa Catarina. Talvez não tivesse sido assim.
Quando entrei para Engenharia Mecânica, encontrei um colega na rua que tinha estudado comigo no 12º ano e que me perguntou:
- Então? Entraste em Belas Artes?
- Não. Coloquei Engenharia em primeiro lugar. Mas teria entrado! Tirei 85% na prova de desenho.
- Olha... eu não consegui entrar em Belas Artes... Deus dá pérolas a porcos!
Fiquei a olhar para ele... e nestes anos todos, de vez em quando, fico a pensar se não estarei de facto a desprezar algumas pérolas.
Os meus cadernos estão muitas vezes desenhados... ainda hoje, o desenho é uma escapatória para mim.
Prometo publicar aqui algumas das minhas pérolas em bruto.
Para já, apresento-vos o Fiu-Fiu. Desenhado a lápis, com acabamentos no Photoshop.

quarta-feira, setembro 13, 2006
A Guerra do Fogo
Aliás, e antes de continuar este post, cheguei à conclusão de que gosto particularmente de dois realizadores, quando me apercebi que eram eles quem tinham realizado alguns dos meus filmes preferidos. Estes realizadores são:
- Jean-Jacques Annaud - realizou "A Guerra do Fogo" e "O Nome da Rosa";
- Ridley Scott - realizou "Alien o 8º Passageiro", "Blade Runner", "1492 - A Conquista do Paraíso" e "Gladiador".
Os filmes que mencionei encaixam-se na minha categoria "MUST HAVE" e portanto, foi com espanto que vi "A Guerra do Fogo" à venda na FNAC. E não resisti.
Há filmes que causam uma mítica quando os vemos pela primeira vez, mas quando os revisitamos, essa mítica esfuma-se. Não foi o caso de "A Guerra do Fogo".
Trata-se de um filme sobre uma tribo de seres humanos pré-históricos que ainda não sabem produzir fogo, mas que estão totalmente dependentes deste para se aquecerem, cozinharem os alimentos e afugentar os animais selvagens. Só o conseguem obter quando este surge no estado natural e protegem-no religiosamente dentro de uma campânula.
A dada altura a chama, que é tão cuidadosamente guardada, apaga-se. A tribo elege três dos seus membros para partirem em busca do precioso fogo. O filme conta a aventura desses três homens: as peripécias e o encontro com outras tribos de homens, umas mais sofisticadas e outras menos. Os três homens acabam por descobrir outras tradições... e mesmo a arte de "fazer" fogo.
É evidente que temos de desculpar alguns efeitos especiais, e um ou outro pormenor de caracterização.
Por outro lado, o filme consegue transmitir toda a estória sem recurso a muitas verbalizações (como seria próprio daquele tempo), de tal forma, que não existem legendas.
É, no fundo, um filme sobre a descoberta do homem, pelo próprio homem: os primeiros risos, os primeiros olhares sobre outros usos e costumes, outras formas de amar e ser amado. Tudo contado magistralmente e com uma envolvente paisagística que nos transporta efectivamente a uma época que sabemos ter existido e da qual guardamos memórias ancestrais.
A não perder.
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segunda-feira, setembro 04, 2006
Amor na Lota do Peixe - Capítulo V
Ouviram-se "Ohs" de todos os lados.
- Então o meu pai é Joselino Narigangas, distinto Presidente da Junta de Freguesia de Vila Marmota? - choramingou Zé Bigodes.
- Então este candidato a candeeiro de mesinha-de-cabeceira é o meu filho bastardo? Eu que tentei ocultar este pecado durante tanto tempo, agora aparece-me a rebrilhar no escuro! - constatou friamente Joselino Narigangas.
- Vê, pai meu, como o Zé Bigodes não é filho de nenhuma galinha de aviário? - ripostou Olívia Manca.
- Como podes garantir isso, filha minha? Apenas sabemos que ele é filho do Presidente da Junta! Falta agora saber as preferências sexuais do nosso insigne doutor Joselino Narigangas!
Joselino Narigangas não acreditava nos seus ouvidos, que ditavam ao cérebro tudo quanto assimilavam, vai para cinquenta anos. Apontando para Francisco Panças, fez saber:
- Como se atreve a dizer que eu sou um galinhófilo? Para que saibam, sou heterosexual e não admito que ponham em causa a minha masculinidade!
A velhota que havia dado génese a todos estes atritos, era a dona Miquelina Zarolha, mulher-a-dias aposentada, com a provecta idade de cento e trinta e dois anos. Esticando o pescoço para parecer mais alta, explicou:
- Estes olhos já viram muita coisa! Joselino Narigangas, na sua juventude, era um autêntico Don Juan. Não havia catraia que resistisse ao seu nariz afilado. Quiz o cupido que ele se enamorasse por Sezaltina Buços, criada-de-servir na quinta da família Narigangas. Do seu amor secreto, nasceu este rebento luminoso, o espadaúdo Zé Bigodes, que é as ventas chapadas da sua mãe. A família Narigangas não podia admitir esta relação entre elementos de classes sociais tão distintas! Pagou uma soma abismal para que Sezaltina Buços abalasse para a América e se esquecesse que tinha tido um caso com Joselino Narigangas. Entregaram o bébé do pecado para adopção e este teve a sorte de calhar com um pai extremoso, o senhor Florindo Lambreta. Os pais de Joselino fizeram com que ele tivesse poucos contactos com o seu filho bastardo! Ele deve estar tão surpreso quanto vocês todos!
Joselino Narigangas chorou copiosamente.
- Porquê a mim? Porque é que não posso ter um filho normalzinho, com índices normais de radioactividade? Agora o que é que eu faço com este mutante, produto duma sociedade industrializada de leste?
Zé Bigodes lançou mais uma acha para a fogueira:
- E eu? Não sou perdido nem achado neste assunto?
quarta-feira, agosto 30, 2006
Renault Clio I 1.4 RT
Hoje, o meu carro foi para abater... ao fim de 10 anos na minha posse... ao fim de 106.000 km percorridos.

Deu-me mais alegrias que tristezas. E juntos passámos bons e maus momentos.
Primeiro, falo dos maus momentos, para que possa terminar em beleza:
- Lembro-me duma vez em que o Clio começou a deitar um espesso fumo branco pelo capot: tinha furado um tubo de água no radiador. Felizmente estava a 500 metros de uma oficina.
- Uma noite, ia a sair com o carro e rebentou o cabo do pedal da embraiagem. Felizmente estava à porta de casa.
- Tive um encontro imediato com um Autocarro da STCP numa manhã de domingo, após uma noite de chuva. Reparação do autocarro: 18 contos (ainda era em contos). Reparação do Clio: 250 contos.
- Por duas vezes deixei as luzes do carro acesas, que me drenaram a bateria.
- Tempos houve em que o carro soluçava nas subidas do IC1 (estrada que percorro muitas vezes): tinha partido a base do carburador.
- Quando a panela de escape furou, tive a sensação de estar a pilotar um carro de rally.
- Uma vez, o termóstato do radiador pifou e o carro foi aquecendo constantemente à medida que ia percorrendo os quilómetros no IC1. Parei na Póvoa de Varzim com o ponteiro da temperatura quase na zona vermelha (e em riscos de queimar a junta da colassa). Fizeram-me uma ligação directa à ventoínha, colocaram a chauffage no máximo e lá segui viagem.
- Ao descer a Serra da Estrela, o carro embalava mesmo em segunda. A utilização dos travões valeu-me uma esquentadela jeitosa e um cheirinho característico a ferodo. Mas os travões, depois de arrefecidos, ficaram como novos e cumpriram a sua missão durante mais uns milhares de quilómetros.
Pensando bem, o carro quase nunca me deixou ficar verdadeiramente mal. Fartei-me de passar por BMW e Mercedes encostados na berma das auto-estradas. Isso nunca me aconteceu. Foi um bom carro. E deu pena entregar um carro para abate em tão bom estado de conservação. Mas, com 15 anos, ninguém me dava os €1500 que lucrei com este procedimento.
Do lado positivo, tenho as viagens que fiz, as conversas que tive com ele... algumas confidências, alguns desabafos... as pessoas que transportei e outras que queria, mas nunca consegui transportar. Foi nele que aprendi verdadeiramente a conduzir e é a ele que dedico este texto.
Os meus amigos associam o meu carro a um peluche que trouxe pendurado durante muitos anos no espelho retrovisor interior: o Patrício.
O Clio, o Patrício e eu vivemos uma aventura que durou 10 anos e que hoje finda. Marcava o contador 158.949 km. E já tenho saudades.
Até sempre.
Shallow
Tell me somethin', girl Are you happy in this modern world? Or do you need more? Is there somethin' else you're searchin...
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